Magno Mello nasceu em São Paulo, no dia 24 de janeiro. Poeta, compositor, escritor e pesquisador do gênero textual Letra de Música, também ministra workshops, cursos e palestras. Em 2010 recebeu o Prêmio Interações Estéticas, do Ministério da Cultura / Funarte.
Foda-se a morte
Não queremos morrer com dignidade
queremos peidar e cagar antes de nossa morte
(pelo menos os sábios)
morrer é a maior merda de todas
e todos são culpados
a morte só é engraçada para quem perde
alguém que não ama e recebe uma herança
morrer é uma ideologia
deixar de existir é outra coisa
Constructo
Aos poucos vou construindo meu Deus
todos os dias
para que Ele fique pronto
quando eu também o estiver
vou construindo meu Deus
para ter a quem entregar minha pequena obra
do contrário, de que vale ser ateu e workaholic?
e vale
quem poderá dizer que não?
pobre de espírito não é aquele sem relaxamento
mas quem, quiçá por preguiça, não quer construir seu próprio Deus
e pega emprestado o de outros
(e nem desses outros Ele é)
quem não tem seu próprio Deus
não tem nenhum
e ao contrário do que se diz por aí
Nenhum nasceu pronto.
Doce palavra
Doce palavra doida que soa múltipla
inédita, absoluta, absurda
feérica, com seus signos ocultos
(sendo todo sonho um filme mudo)
doce palavra que não diz, mas cala
em sua sonoridade última invade os ouvidos
provocando na alma um surdo estampido
e no coração um gemido
Café sem açúcar
Não sou quem não posso ser
embora a vida inteira eu tenha tentado
e se tivesse tentado ser quem sou
seria melhor que isto?
não aprendi quase nada de útil
para meus objetivos
estudei o mundo, a história, a vida
sonhando me tornar um atleta
querendo ser artista
fui um animal disciplinado
e larguei o coração numa esquina
mas ainda carrego alguma esperança
de desaprender a velha gramática
trair minha cara no espelho?
não posso
não quero
e, acima de tudo, não é possível
então, esquecer o que
se nos sentiremos todos estúpidos por não vencer a morte?
não busco a felicidade
apenas um sabor de café sem açúcar
e talvez um dia meus netos dirão:
era meio maluco
mas existiu.
*Poemas do livro “Velhos Poemas escritos somente agora”, Editora Oito e Meio, 2016.