Diana Junkes Bueno Martha nasceu em São Paulo (SP), em 1971. Poeta, crítica literária e professora de teoria literária na Universidade Federal de São Carlos, ela coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Poesia e Cultura. Sua principal linha de pesquisa desenvolve-se na área de Letras, com ênfase em estudos de Literatura e Cultura Brasileiras na modernidade e contemporaneidade. Foi Pesquisadora Visitante de uma série de universidades fora do país, como Universidade de Yale (EUA), em 2012, onde desenvolveu pesquisas específicas sobre Haroldo de Campos. Coordena o acordo de intercâmbio internacional entre o Programa de Estudos de Literatura-UFSCar e o Programa de Literatura da Universidade de Playa Ancha/Chile, do qual também é professora visitante.
ópio
deste lugar vejo um buraco na calçada
é uma calçada qualquer está em todas as cidades
diante de mim o buraco confunde-se
com a mancha de gordura no papel
que protege a toalha da mesa deste bar
aonde venho para me desfazer de mim
é um bar qualquer está em todas as esquinas
de todas as cidades
nada posso fazer para impedir
a mancha contaminando a história
e se este deus não tiver mãos
como colocar esta miséria nas mãos dele?
se for surdo cego egoísta para que pedir?
deus não fala deus é mudo
homens no altar é que falam por ele
deste lugar vejo o buraco a calçada
o papel engordurado que se cala
a ponta da toalha escondida sobre ele
como as bandeiras vermelhas
que estão embaixo das camas
penso neste deus sem mãos
surdo cego egoísta
penso neste deus inútil mudo
insensível às almas alucinadas
aos decretos às ponte suicidas
aos cacos de vidro que nos enfiam
goela abaixo todos os dias
transporte público
a morte está em qualquer momento
sei disso porque carrego corpos
não reclamo porque não estudei
e foi o que me coube neste mundo
também não sofro não me lamento
entre o pranto e o pagamento do serviço
a distância é longa a grana é curta
mas dá para comer e pagar a luz
só me abalo quando o morto é criança
o choro dos pais a faca do desatino
a ordem inversa da vida é vil
se não é criança a carniça
para mim tanto faz
transgressão
o amor acontece nas marginais que circundam
o perímetro urbano nas pontes complexos viários
esparramam-se no arrastado uivo dos caminhões de lixo
nas portas que batem no apartamento de cima
dilui os sussurros da cidade encantada
no verde-vermelho de cada semáforo
dois anônimos se amam no acostamento
lavrando o piche cascalho betume
como se de terra fosse feito o asfalto
como se do asfalto se alimentassem
os poemas que nunca serão escritos
o amor acontece nas marginais que circundam
o perímetro dos afetos e das despedidas
banhando-se no chorume que escorre pelo acostamento
seu fígado tomado de remorsos
refaz a hybris de viver todas as noites
portbou
nos muros sombras
talvez houvesse um último manifesto
mas à beira do cadafalso a pele das esperanças rasga
a solidariedade rasteja quando o totalitarismo avança
não: não é como o fim de uma história de amor
em que a amargura e a despedida soam como metralhadoras
e ouvindo bem são apenas os acordes de miles gemendo
blue in green antes da árida tempestade
não: estas sombras nos muros
são trapos sobre lábios inocentes
são as sepulturas antes mesmo que a morte
venha vestida de sábado
é o momento em que o filósofo entende
que o tempo das ruínas venceu
que as asas do anjo partiram
fez seu último brinde e
embebeda-se de morfina
lendo os versos de baudelaire
pangeia
cada um parte a corrente de sua própria ilusão
os restos de ferro enrolados nas pernas
não impedem a leveza dos passos o choro estreito
algum sorriso as feridas à mostra nas sobras
nos pesadelos ou desejos abandonados
cada um parte a corrente deu sua própria ilusão
mas as travessias são inúteis
não há céu não há cometas ou fronteiras
só a espaçonave de mágoas
que retorna todos os dias em
luanda
roma
damasco
lima
sampa
ou bh
*Poemas do livro “asfalto”, Laranja Editorial, 2022.