Sérgio Nazar David nasceu em Além Paraíba, Minas Gerais, em 1964. Poeta, professor de Literatura Portuguesa, Teoria da Literatura e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, integrou a diretoria da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa (de 2007 a 2013). É membro do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra (Equipe Garrett), da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e do Conselho Cultural da Fundação Eça de Queiroz (Portugal).  Com o livro “A Primeira Pedra”, foi indicado ao Prêmio Portugal Telecom 2006.

LIMITE

No meio de um cigarro,
lembrar-se das mãos que a seguravam,
do gato com pulgas fora do quarto,
a TV chiando,
o banheiro interditado,
a água descendo na calçada de espuma…

Ele disse que gostava de não dizer nada
enquanto injetava líquidos sonhando,
que era em segredo que ardia
e às vezes tocava o feltro das asas.
Seus passos se perderam dentro dela:
uma escada inutilizada pelo tempo,
um vão para flores fotografado de cima,
uma portada excessivamente nobre
sem qualquer movimento de fuga,
um abrigo para estátuas
transformando em pátio de bicicletas.

“Vim procurar sinais de vida”,
disse ao abordá-la na escada,
ou foi ela mesma que disse?
Ela não entendia. Era tudo tão pouco
poético. Mas, foda-se, vai assim mesmo.

PRIMEIRA PEDRA

Queria não escrever mais nenhum verso,
que não houvesse mesmo ato algum
a cometer, além das folhas em que piso
ou do nada em que amanheço.

E que depois de depois de depois
de amanhã, se não mais houvesse
mundo, um homem ainda assim
amanhecesse esquecendo-se

da noite, e, abrindo a porta, o zimbório,
o fino vão entre as telhas,
fizesse a primeira pedra,
edificando-a como nunca antes fora

pedra alguma feita: de vento, de
puro silêncio, de azeite, com as vozes
da gente que ficaram num rádio,
com o medo da gente que ficou no peito

deste sobrevivente. Nós somos assim,
estamos sempre no meio e, entendam,
não há nisso qualquer mácula,
apenas destino, que se pode cortar,

seguir, bater na velha máquina Remington.
Quanta cinza, dirá o homem.
Depois de tudo a vida ainda cintila?
Inexata, rude, proterva, nascendo

quando os próprios astros se extinguem…

O QUE ELA ENGOLE

O que ela guarda na mão esquerda?
O que ela pede enquanto levita?
De quem se lembra em sórdido fracasso?

Por que não dorme com o antebraço
em vez do travesseiro? Que destinos
giza intrépida com olhos de víbora?

Que demônio se esconde no seu berço?
A noite pode ainda assim retê-la?
O que ela engole e prende dentro do

corpo, amarrando a saia às coxas?
O que lhe rompe o peito às horas
mortas e faz abrir-se o vento, selar-se

o rito, morrer este que escreve? Às vezes
acha tudo ultrapassado, e quer fechar
os braços, o corpo todo. Que nenhum

farsante venha tirar-lhe do vermelho…
Agora é ater-se à dança, conquanto
tenham-se fechado as portas, o teto,

as paredes, e estejamos presos na vitrine.
Não quero desistir de novo e morrer
pela boca como peixe. Pede-se tão pouco

DEEPER

Um limite surdo e absorto
em cada aresta do corpo…
E a pergunta: até quando?
A natureza humana talvez sirva

pra suportar isto, e seja o poço,
o pântano, o lodo, o nada
que em nós dorme e se agita.
Tudo que sinto é meu e estranho.

(É disto que gosto tanto).

A poesia me pôs dentro da vida.
É esta força que fica
dentro do mundo
que ergo antes do fim.

*Poemas do livro “A Primeira Pedra”, Editora 7 Letras, 2104.