Araripe Coutinho nasceu no Rio de Janeiro, no dia 13 de dezembro de 1968. Poeta, jornalista e apresentador de programas de TV, radicou-se em Aracaju, Sergipe, em 1979, onde recebeu os títulos de Cidadão Aracajuano e Sergipano. Foi membro da Academia Sergipana de Letras e diretor da Biblioteca Pública Municipal. Faleceu aos 45 anos, em 9 de dezembro de 2014.
XXXIV
Acreditei no homem
E fiz uma moldura
Pro seu rosto de fome.
Wilde, Gide, Trevisan.
O mundo há de buscar a
Mente desses homens
O que é carne – firmamento
É alvo para sempre
Exposto a todas as flechas.
A revelação é quase um Deus nascendo.
O que é escuro
Apenas fenece
Atrás da porta.
TRAÇADO
E fostes o quanto pudeste ser
Arrozais, lírios, crisântemos
Fleuma “fluxo floema”
Eu abri o mistério das almas
Nivelei por cima todas elas
Umas cansadas, ricas de culpas
Dores, ausências.
Eu, traçado de uma bússola
Apenas.
O AMOR JAZ
O amor jaz no cacto do jardim
E cada espinho exposto à luz do corpo
É um pedaço morto de cada um de nós
O corpo é feito de taças
– cheias e vazias –
Vitrais de luas engolindo a noite
Pousando gozos nas sombras das ruas.
Além das veias todo amor ´sangue
Sangue de um sorvete de solidão amarga
Assim morrendo
Assim tão suave inflama
Dentro da alma
Além da madrugada.
Rendidos já não buscamos a enseada
O sorvete que falo
Vem das almas
Das almas das mulheres nunca amadas
Que sempre pelas taças
Vertem lágrimas
E bebem gotas de amores mortos.
Peço a Deus
Peço a Deus que me chicoteie
Que desça sobre mim o coice
Das coisas imperfeitas.
Mas Deus saboreia a minha lágrima
Feito um antúrio rosa.
E na vidraça Seu rosto
Se emoldura de carne e cheiro
De alecrim. Cristo sangra
Na varanda toda noite.
Meninos de Calcutá
Não sabem da copa do mundo
Me dão voltas com a bola de gude
E pensam que a vida
É apenas o olho de Deus
Espiando a gente.
Peço a Deus que me chicoteie
Mas ele reza
Em pranto.
FACE MORTA
Trazes nas mãos o verso adormecido
Que ao poente desce murmurante
Trazes também a procissão dos atos
No amarelo ácido dos instantes.
Quando circundam frestas e anseios
No peito pardo da mulher calada
Águias e feras, vultos permanentes,
Insistem em despertar a madrugada.
Enquanto a vida acaricia a morte
Vertidas lágrimas cristalizam a noite
Espaços vagos por perdido amante
Nutrem de solidão a cavalgada.
E nos segredos dos cofres dos amores
A noite enclausura suas vítimas
No coito da manhã assassinada.
Amores intermináveis vão rolando
Na areia namorada da saudade
E beijos tombam em hálitos venenosos
Beijando a face do horizonte amado
E o verso despe-se às escâncaras
Mesmo existindo sentimento amordaçados
E caem pétalas das orquídeas vespertinas
Enquanto em silêncio fecham pálpebras
No útero da manhã que ainda dorme.
*Poemas do livro “Obra Poética Reunida”, 2009.