Bianca Monteiro Garcia nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1994. Poeta, Professora, Editora e Revisora, é editora da Macabéa Edições e da Taioba Publicações. Coministrou a oficina “Literatura e loucura: Maura Lopes Cançado, Lima Barreto e Stella do Patrocínio”, na Coart/UERJ. Pesquisadora independente de poesia contemporânea escrita por mulheres, tem poemas publicados em diversas revistas e plataformas digitais. Seu livro de estreia, “breve ato de descascar laranjas”, recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia, em 2024.

pêndulo de foucault

deitada na poltrona de frente pra cama
ensaio um luto te vejo segurando um pedaço
de amora adormecida com as mãos no abdômen
carrego no peito um pêndulo estático
e atento aos teus ponteiros
varro os olhos pela casa e a casa despeja
uma canção sem resposta:
tua pele este tronco de madeira antiga
será capaz de carregar ainda
a textura do teu tempo
quando a raposa que à noite te fareja pela janela
decidir enfim saltar em tuas pernas?
o ruído que tua pleura orquestra
ferve na sola dos meus pés um aviso
a noite se esconde da aurora
e o rastro deixado pela areia
forma um longo tapete antiderrapante
a raposa mais uma vez adormece
debruçada nas patas de um cavalo

checklist para o fim

– estacionar o vento da primavera no passado
– espantar a mariposa preta que insiste suas asas
no alto de uma varanda sem teto
– andar sem produzir sombras
[movimento ébrio]
– viver a morte em doses homeopáticas

de resto
.            silêncio mineral

birdman no quarto-forte
.                                              para meu avô materno

o interfone toca
é juarez com rebeldia a tiracolo
o sol na cabeça meio-dia no relógio
na rua gustavo riedel ovelha fora do pasto
tranca o quadrado engole a chave
venera a curva vinga joana
ao fazer do lustre da sala um chuveiro
vira um super-homem sem capa
brigadeiro do ar
funcionário público do dnit
em exercício de profissão
amigo do presidente
inimigo do presidente
o próprio presidente
um líder anarquista
este ser superpoderoso
aposta corrida
em estilhaços
atravessa o vidro das sendas
rumo à fila de carne nos anos 80
não ganha medalha não
xinga o pecuarista pela alta dos preços
traz a carne pro almoço
pontualidade e concisão
soletre h e r e d i t a r i e d a d e antes de escrever
não faça da borracha um hábito
de equívoco nos deveres de casa

escanteio

o enfermeiro plantonista
no seu intervalo gosta de ir ao pátio
chuta a bola contra a parede
a psicóloga residente produz uma atividade em campo
observa e comenta na mesa da loucas:
olha o que o márcio tá fazendo
hahaha
acho que ele precisa de internação
tá batendo bem não

joelho anatomia

tudo sobre o joelho
articulação do joelho movimentos
articulação do joelho cinesiologia
ligamentos do joelho
lesões no menisco
sonhar com joelhos pode significar
muita coisa
– evite dores de cabeça
– não se meta na vida alheia
– cuide bem de suas finanças
sonhar com joelhos
sobretudo com joelhos humanos
lesões no menisco
inflamações recheios
só pode significar
uma coisa:
falta de emprego

cemitério dos vivos

barulho de obra
silêncio hospitalar
escambo de calcinha e cigarros
o dia ensolarado acena
no final do corredor
a seis leitos de distância
pernas dopadas ferros e grades
o mato descuidado consola
os doentes que circulam o pátio
uns de carneiro outros de cova rasa
mas todos exceto todos
largados às traças
às cobras noturnas de barriga cheia
sentadas na cadeira de repouso
em hora de ceia
a água potável da cedae
sonho distante e de mau gosto
assim como o perímetro que percorro
incessantemente
à procura de rejuntes
e janelas

*Poemas do livro “breve ato de descascar laranjas”, Editora 7 Letras, 2023.