Hilda Doolittle, mais conhecida pelas iniciais “H.D.”, nasceu em 10 de setembro de 1886, na Pensilvânia, Estados Unidos. Autoproclamada “mística pagã”, foi poeta, romancista, ensaísta, dramaturga e tradutora, tornando-se uma das mais importantes vozes do modernismo em língua inglesa, especialmente do Imagismo, movimento fundado por Ezra Pound, com quem, inclusive, chegou a ser foi noiva. Em 1911, viajou para a Europa e nunca mais retornou à América, estabelecendo-se entre a Inglaterra e a Suíça. Faleceu em 27 de setembro de 1961, em Zurique, na Suíça.


A poça

Estás vivo?
Eu te toco.
Tremes feito um peixe marinho.
Cubro-te com minha rede.
O que és – estranho listrado?

Canção

És dourada
como o grão quase maduro
que uma vez mais funde-se ao ouro,
branca como a chuva branca
que golpeia entre
as flores semiabertas
dos grandes tufos de flores
espessos sobre os galhos negros
de um tronco de maçã da Ilíria.

Pode o mel destilar tal fragrância
como teus cabelos claros –
pois tua face é alva como a chuva,
e assim como a chuva que jaz límpida
sobre um branco favo de mel
empresta radiância à cera branca,
assim teus cabelos sobre a fronte
lançam luz para uma sombra.

Helena

A Grécia inteira detesta
os olhos imóveis sob a branca testa,
o esplendor como o das olivas
onde ela se levanta,
e as mãos brancas.

A Grécia inteira injuria
o rosto pálido quando ela sorri,
odiando-o mais ainda
quando fica branco e lívido,
rememorando velhos encantos
e males antigos.

A Grécia observa, impassível,
a filha de Deus, do amor nascida,
a beleza de pés frios
e joelhos tão esguios,
poderia de fato amar a donzela
se ela apenas fosse deitada,
cinza branca entre fúnebres ciprestes.

Depois de Troia

Lançamos contra seus deuses
ódio límpido, invencível;
lutamos;
desvairados, lançamos a última,
imperiosa, desesperada haste
e perdemos:
conhecemos a perda
antes que eles cogitassem
que a sorte lhes havia atirado
seu favor e seu capricho;
como fomos, porém, oprimidos?
perdemos, mas ao forçarmos
nossos lanceiros no auge,
soubemos que sua fila era invencível,
pois não recaiu
sobre eles nenhum calafrio
da branca feiticeira,
encanto da radiante Afrodite:

lançamos nossas flechas da paixão,
nobilíssimo ódio,
e soubemos que sua causa era sagrada,
e seus deuses, mais nobres,
mais educados na maestria,
mais sutis em sua astúcia,
porém, fosse a divina vontade
que eles e não nós fenecessem,
esses campos teriam sangrado, sabemos,
com rosas menos vermelhas.

Lete

Nenhuma pele, ou couro, ou velocino
.                Há de cobrir-te,
Nem cortina de carmim, ou delicada
Guarida de cedro há de guardar-te,
.               Nem a árvore do abeto,
.               Nem o pinho.

Nem sinal de tojo-bravo, ou espinheiro,
.               Ou cipreste à beira do rio,
Nem perfume de arbusto florido,
Ou pranto de ave-do-caniço a despertar-te,
.              Nem sabiá,
.              Nem pintassilgo.

Nem palavra, nem caricia, nem vislumbre
.             De amante, tu
Hás de desejar a noite inteira apenas isto:
Que a correnteza da cheia te cubra,
.             Sem perguntas
.             Sem um beijo.

*Poemas do livro “Eurídice e Outros Poemas”, Editora Círculo de Poemas, 2025.