Alexia Carpilovsky nasceu no Rio de Janeiro, em 09 de outubro de 1997. Poeta, jornalista e mestranda em Comunicação Social pela PUC-Rio, trabalha no campo das artes visuais. Atualmente é assistente de coordenação do Instituto PIPA. Jardim de Ruínas, de 2025, é o seu primeiro livro publicado.
ouroboros
nós
eu minhas bactérias
minhas células gastas
penduradas
à beira do abismo do corpo
minhas cutículas
estamos acenando
como uma fita de möbius
em eterna dúvida
se é olá ou adeus
véspera
material arqueológico:
vídeos de réveillons em outras décadas
quando o futuro prometia
e as pessoas acreditavam
hoje sabemos que o futuro tinha
um amante e
quando demorava a chegar
à noite
estava flertando
agora todo ano novo é um excesso
ou uma falta
fogos de artifício, cores excitadas
que se atracam no céu gritando
adeus adeus adeus
cada explosão, um orgasmo
além de uma despedida
os filhos dos anos que continuam
nascendo
são amamentados por lobas
e roma começará ao contrário
as ruínas serão a construção
a vida caminhará em direção ao mar
teremos brânquias guelras
e a terra vai esperar em véspera
a inspiração para se reescrever
a insistência do que não cessa de existir
ruínas
são a terceira margem do rio
nem passado nem presente
uma fenda temporal
um inquilino parasita
o amanhã dos escombros
nós
mesmo derrotados
nos fazendo lembrar
vigília
vou te farejar inteiro
um cão de guarda procurando
sinais de perigo
tentando aprender
com caninos e molares
o odor do lar
memória
me peça ovos que não quebrem
adoro o desafio
me mordendo as costas
comprimindo os tímpanos
esse plasma constante entre as coisas
você
logo após o alcance
te escuto
nas ondas de interferência radiofônicas
você
canções de ninar em código morse
te espero
na esquina do ontem
as pernas avançam
cravo os dentes na carne do tempo
os povos longínquos me barram na fronteira
quase
desperto uma civilização desaparecida
grito por atlantis desenterro el dorado
meu tendão de aquiles
estremece
ao som das tuas vogais
ícaro, as asas buscando de novo e de novo
o sol
se eu chegasse na hora errada
você me reconheceria?
você me reconheceria?
você me reconheceria?
*Poemas do livro “Jardim de Ruínas”, Editora 7 Letras, 2025.