Anilda Leão nasceu em Maceió, Alagoas, no dia 15 de julho de 1923. Poeta, escritora, atriz e cantora, foi uma importante militante feminista da classe artística, a partir da década de 50, como representante da Federação Alagoana pelo Progresso Feminino. Publicou o seu primeiro livro em 1961, intitulado “Chão de Pedras”. Em 1973 escreveu um volume de contos, “Riacho Seco”, com o qual conquistou o Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras.

Como atriz, trabalhou nos seriados Lampião e Maria Bonita e Órfãos da Terra (1970),e nos filmes “By by Brasil”, Memórias do cárcere (1984) e Deus é brasileiro (2002), além de “Tana’s Take”, de Almir Guilhermino e outras produções locais. Anilda Leão faleceu aos 88 anos, no dia 6 de janeiro de 2012, em Maceió.

Poema das horas perdidas

Eu vivo nesse momento a tristeza
Das horas perdidas,
Das horas mortas,
Das horas inúteis,
Horas que deixamos passar sem seres vividas.
Há tanta vida lá fora e nós dois tão distantes,
Tão dolorosamente afastados.
Por que matamos sem piedade tudo o que há de belo
Dentro de nós? Por quê?
Há uma infinidade de horas entre a hora presente.
E ainda agora trago nas minhas mãos,
Na minha boca, no meu corpo,
A sensação da nossa última carícia.
Eu vivo neste momento a tristeza
Das nossas horas inúteis.
Horas estéreis. Melancolicamente vazias.

Cigarro

Sinto na minha boca um gosto vazio.
Um gosto de jejum. Um gosto de nada.
Acendo um cigarro. Fumo.
E o gosto masculino que fica em minha boca,
Vem preencher a sua ausência,
E a ausência de seus beijos.
No gosto do meu cigarro
Sinto o gosto da sua boca.

À procura da infância

Procuro ouvir na voz do vento
o eco perdido da minha infância.
E no riso franco das criancinhas
eu vislumbro o meu riso antigo.
Procuro nas ruas desertas e silenciosas,
o canto alegre das cirandas
e as minhas correrias do tempo recuado.
Dentro daquela avenida asfaltada,
onde rolam automóveis de luxo,
eu busco a minha ruazinha feia e pobre.
Procuro ver nas bonecas de hoje,
tão lindas, de tranças sedosas,
a bonequinha de trapo que eu embalei nos meus braços.
Procuro encontrar no rosto das neocomungantes
traços de minha inocência
e a primeira emoção daquela que ficou no tempo.
Procuro descobrir, desesperada,
na face ingênuas das crianças
a minha pureza perdida.
Procuro em vão, pois não encontrarei jamais
vestígios da minha infância feliz,
que os anos guardaram no seu abismo.

*Poemas do livro “Inesquecíveis – Quatro Séculos de Poetas Brasileiras”, Editora Bazar do Tempo, 2026.