Ana Botner nasceu no dia 26 de dezembro de 1999, no Rio de Janeiro (RJ). É poeta e Cientista Política, formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Publicou, até o momento, dois livros de poemas: “Andar Barato” (Urutau), em 2021, e, mais recentemente, “Eros no campo aberto” (Telaranha), em 2024.
PEQUENA ITÁLIA
te provo sem rumo
de volta ao pescoço aos dedos dos pés
acho que isso devia ser
como um trem a distância
dirigindo para cima e para baixo
na atmosfera densa
de uma Amazônia alargada
acho que isso devia estar
lambendo sua barriga
e indo todo o caminho para baixo
devia estar te olhando bem nos olhos
e se perdendo
balançando o barco através da terra seca
acredito que iremos para a Itália um dia
procurar seus parentes distantes
e este poema será como verões quentes na Sicília
e um copo de água gelada
acho que isso devia ser como uma praia calma
indo pela nossa cama
deixando cair água
ESPAÇO
no começo, não havia rios
as rochas começavas a se acumular umas sobre as outras,
a gigante vermelha explodia em pedaços
abrindo a manhã
os cinemas não abrirão até de manhã
os cafés estão vazios
e os corredores estão se preparando
nenhum deles é fumante, nenhum deles está triste
os filhos dela são tão calmos, você não acha?
continuei vagando
esperando pela coisa que fará todos pararem por um segundo
apenas olha aquela bola amarela subindo
no começo, me lembro, era oco
estava esperando a visão ser criada, compreendida
o que farão de mim depois de construírem espaços lotados
em pequenos cômodos?
me lembro de como era antes
a solidão, essa deusa invertida
no topo de uma montanha
caindo
no seu colo
ROMANTIK
de qualquer forma, a verdade é que as estrelas se alinham
para lamber gotas de suor em sua bochechas,
elas têm gosto de luz de velas à meia-noite
enquanto lobos e suas matilhas se afastam daquela lua redonda
e ouvem os sons do oceano quando ninguém está por perto.
como um relógio feito pelas mãos da gigante baleia branca
os sons do oceano
mordem como um bebezinho
sem dentes
eles estão morrendo como perdedores de uma queda de braço
em uma sexta-feira comum
eles estão morrendo como viciados em ópio
em uma China de não muito tempo atrás
eles estão morrendo pelas beiradas
em um cantinho familiar onde ela cantava
aquela velha canção de amor
EROS NO CAMPO ABERTO
estranhamente, pedi luzes douradas quando o trem chegar à estação
eros, olhando seus olhos de nevasca negra
fazendo chover no topo da sua cabeça
nós estamos jogando uma peça desconhecida
assistindo a moedas caírem no oceano
as ondas deixando ir
“você é mais eu do que eu”
foi o que você me disse
em cima de uma cadeira
gritando do topo de seus pulmões
deixando o cigarro cair
pela janela aberta
MIRA
você se parece comigo quando eu tinha meses de idade
os olhos escuros e profundos do cânion
grandes buracos e luzes separadas
esperando por um milagre
um verão deslumbrante
você nasceu no verão
como eu
o suor dos primeiros dias
daqueles nascidos sob a bola de fogo
balançando no céu com força total
eu e seu pai – meu pai –
estávamos olhando as estrelas
documentando a hora que você nasceu
profetizando o futuro
você nasceu à noite
com sangue na pele
chorando pela mãe
assim como todos nós, irmãzinha
eu sou 22 anos mais velha que você
eu sou sua tia-irmã
nosso pai diz que tem certeza de que você será uma intelectual
e falará muitas línguas
e viajará para muito lugares
eu espero que você não fume
eu espero que cometa outros erros
eu espero que você se apaixone
e quando isto acontecer
você vai ler este livro
e você saberá do que estou falando
mas por enquanto
eu quero ver você crescer selvagem
expandindo em uma combinação sensível de fogo e leite
assombrada pelo tecido de sua primeira roupa
seu primeiro sussurro
sua primeira palavra
que será, como todos nós, minha pequena: “mamãe”
*Poemas do livro “Eros no campo aberto”, Editora Telaranha, 2024.