António Manuel Couto Viana nasceu em Viana do Castelo, Portugal, no dia 24 de Janeiro de 1923. Poeta, encenador, dramaturgo, ensaísta e tradutor, foi um importante porta-voz da cultura portuguesa no Século XX. Dirigiu a publicação de várias revistas literárias, tais como os cadernos de poesia Graal, Távola Redonda e fez parte do conselho de redação da revista Tempo Presente. Entre 1986 e 1988, foi docente do Instituto Cultural de Macau e também apresentou programas de poesia para o canal “RTP”. António Manuel Couto Viana morreu em 8 de Junho de 2010, em Lisboa.
NA GRANDE MURALHA
Esta coroa imperial a coroar as montanhas
Enobrecem-na sáculos de aprumo militar.
Que arrogâncias de torres em distâncias tamanhas!
São visíveis na lua, se as patrulha o luar.
NO MAUSOLÉU DE MAO
Na Praça maior do mundo.
Num silêncio profundo.
A multidão
(O corpo coleante de um dragão)
Desfila em fila reverente
(Quatro de frente, em frente)
Até ao templo-mausoléu
Que se abre como um céu.
Lá dentro, a eternidade a espera
Com face mítica de cera.
É a China que chega de milênios,
Sacral de antigos deuses e de gênios,
A inclinar o passado
Perante o novo deus do povo renovado.
Depois, num passo lento, mas seguro,
Parte para o futuro.
NATAL DE EXÍLIO
Vai nascer-me o Menino no exílio.
(Nenhum riso a rosar-lhe a palidez?)
Como louvá-lo, então? Como pedir-lhe auxílio?
– Não chega a tanto o meu chinês.
Vou olhar-lhe no olhar oblíquo e grave
A censura à saudade e ao desejo
De me evadir em voo, como íntima ave,
Rumo ao norte de mim, como a prece e o beijo?
De me sentir seguir na caravana
De algum rei oriental que leu a luz nos céus,
Pra adorar o presépio da infância em Viana
E em Sintra consoar na comunhão do Meus?
Acaso entenderá que eu não entenda, não,
Que o menino nascido aqui é igual
Ao nascido onde tenho o coração?
E que sem coração eu não tenho Natal?
NO TEMPLO DO CÉU
Venho implorar do meu cantar maninho,
Que teve outrora a festa da colheita,
Quando no altar da alma insatisfeita
Celebrei com meu pão e com meu vinho,
Que a espada do arado dos sentidos
Rasgue no seio gasto desse chão
Os sulcos da fecunda inspiração
Onde semeio o sonho o verbo unidos.
Venho implorar ao deus dos horizontes
Que, verde de pomares, fresco de fontes,
Me expanda em frutos novos e diversos.
Venho implorar, no Inverno que me esfria,
Uma colheita mais de Poesia,
Em vez de versos, versos, versos, versos…
ACROBATAS
Os pequenos demônios acrobáticos
Nascem febris da imaginação
E desenham no espaço, com seus corpos elásticos
No delírio das linhas, beleza e precisão.
Subitamente, quedam estáticos
Em cima de uma esfera, de uma flor, de uma mão!
*Poemas do livro “Até ao Longínquo China Navegou…”, Instituto Cultural de Macau, 1991.