Edna St. Vincent Millay nasceu em Rockland, no Maine, Estados Unidos, no dia 22 de Fevereiro de 1892. Uma das mais importantes poetas estadunidenses da sua época, foi a primeira mulher a vencer o Prêmio Pulitzer de Poesia, em 1923. Conhecida pelo seu estilo de vida boêmio e casos amorosos (era bissexual assumida) foi vista como transgressora e, por isso, se envolveu em diversas polêmicas. Dona de uma poesia lírica, também tem uma obra marcada pela prosa e a dramaturga. Em 1943 recebeu a “Frost Medal” pela sua contribuição de uma vida para a poesia Americana. Faleceu no dia 19 de outubro de 1950, aos 58 anos, em  Austerlitz, EUA.

XLII QUE BOCAS MINHA BOCA BEIJOU

Que bocas minha boca beijou, onde e por que motivo,
Não lembro, que braços me acolheram de pernoite
Como travesseiro até raiar o dia; porém, essa noite
O chuvisco é fantasmático, batuca e cicia furtivo
Contra a janela e aguarda um incentivo;
Em meu coração a dor salta feito um coice
Ao relembrar os rapazes que, à meia-noite,
Nunca mais me caçarão no grito.
Solitária, assim, é um árvore na invernada,
Dispersa dos pardais que partiram em cordão,
Mas que reconhece seus galhos silenciosos;
Não posso afirmar que amores vêm e vão,
Sei que do verão já ouvi a cantoria afinada
E breve, mas ensurdeci a seus tons dengosos.

BANQUETE

De cada vinha, um golinho.
.    Do último ao primeiro fiz caber.
Mas não encontrei um só vinho
.    Melhor que a vontade de beber.

Roí cada raiz ao pé de cada gruta.
.     Toda planta eu quis morder.
Mas não encontrei um só fruta
.    Melhor que a vontade de comer.

Distribuí uva e feijão
.     Ao vinicultor, ao quitandeiro;
Agora faquir, adormeço no chão,
.    Sede e fome o dia inteiro.

PRIMAVERA

Abril, com que finalidade retornas?
A beleza não basta.
Não me calas mais com a vermelhidão
Da folhinhas que se abrem viscosas.
Sei o que sei.
O sol esquenta o pescoço se observo
As espigas do açafrão.
O cheiro da terra é bom.
Evidente que a morte não existe.
Mas o que isso significa?
Não é só no subsolo que o cérebro humano
É devorado pelos vermes.
A vida em si
É nada,
Um copo vazio, uma escada sem tapete.
Não basta que a cada ano, colina abaixo,
Abril
Chegue feito idiota, balbuciando e derramando flores.

MARIPOSA

Borboletas azuis e brancas
Sobrevoam atalhos e vias.
Deixa-me segurar tua mão.
A morte virá em dois dias.

Tudo que era meu e teu
Na dada hora será pó,
A borboleta transeunte
Florindo-se, airada e só.

Deixa-me segurar tua mão.
No teu corpo fazer folias
Até a aurora parir o céu.
Se me crês ou confias,
A morte virá em dois dias.

LUTO

Atenção, crianças:
Papai morreu.
De suas casacas
Farei casaquinhos;
Farei calças curtas
De suas calças.
Dentro dos bolsos
Todo tipo de miudeza,
Chaves e níqueis
Polvilhados de tabaco;
Os níqueis são de Dan
Pra botar na caderneta;
As chaves são de Anne
E fará delas castanholas.
A vida continua,
Os mortos não voltam;
A vida continua,
Os bons também vão morrer.
Anne, seu café da manhã;
Dan, toma o remedinho;
A vida continua;
E já nem sei por quê.

*Poemas do livro “Poemas, Solilóquios e Sonetos”, Editora Âyiné, 2022.
Tradução de Bruna Beber