Assionara Medeiros de Souza nasceu em Caicó, Rio Grande do Norte, no dia 14 de outubro de 1969. Poeta, escritora e dramaturga, foi pesquisadora da obra de Osman Lins. Fez mestrado e doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo(2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges(2011), Na rua: a caminho do circo (2014) —contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e dos livros de poesia Alquimista na chuva (2017) e Instruções para morder a palavra pássaro (2022, póstumo). Sua obra foi publicada no México pela editora Calygramma. Foi colaboradora da revista Germina Literatura. Participou do coletivo Escritoras Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: Literatura em Trânsito, reunindo autores paranaenses. Estreou na dramaturgia escrevendo a peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro. Assionara faleceu aos 48 anos, em 21 de maio de 2018, na cidade de Curitiba, Paraná, vítima de um câncer no intestino.

Palimpsesto

Certa manhã da infância
Os dedos seguem a trilha-formiga de letras
Um jacaré sai do bueiro
Invade a cidade
Olhinhos ergue o rosto e flagra
Todos calmos na sala de aula
Aquela masca chicletes escondido
Outro apalpa a moedinha do lanche,
Crê piamente na passagem das horas
Quando num salto todos terão que correr
O jacaré é gigante
Ergue-se acima da cabeça de um funcionário público
Com sua valise 007 – o pai sempre quis uma dessas
Escreve-se alligator, mas lê-se “aligueitor”
E gay é outra coisa
[Quando chama algum homem de fresco é igual]
A leitura é silenciosa, mas as longas unhas do jacaré
Arranham, ferozes, o asfalto impresso na página
Aula de Comunicação e Expressão
A professora desenha palavras no quadro negro
As pontas dos dedos tocam a poeira branca do giz
O jacaré está prestes a ser capturado
Coração dispara
O tempo na sala flui suave
À velocidade do embrião, na prateleira de ciências
Preso ao útero verde da garrafa de vidro
Dedinhos viram a página
Uma multidão correr desesperada
O sinal estridente abre a jaula invisível da aula
O jacaré é preso.
A professora balbucia palavras inaudíveis
Todos correm para a liberdade.

Amor, essa rima pobre

O amor não vem quando você chama
E ama só o que lhe convém
Como o trem que aponta na estação
E você saiu pra colher amora
Bem naquela exata hora
Perdeu o amor, perdeu o trem
Esperou tanto que se cansou
Dormiu entre cobertores vazios
Acordou tonta, cheia de frio
E o amor?
Você desistiu, foi viver
A vida só sua por merecer
Com o restinho do que restou
Daquele vício de ter um amor
Regou suas plantas, pagou suas contas,
Amansou o silêncio dentro do olhar
Aprendeu a sorrir com a mesma facilidade
Com que sabia chorar
Com o corpo já refeito
Dos desvarios da dor
Sem querer saber disso de amor
Olha que ironia! O amor te olhou
E você já longe de tantos confrontos nem se abalou
O amor ficou

Automat, 1927

No céu de Hopper
É sempre outono mítico
O tempo descansa longe das câmeras
As palavras flanam em silêncio
E mancham o espaço de uma luz vaporosa
Uma moça toma um café
Nenhuma bebida na xícara a não ser café
Nenhuma xícara sobre a mesa
A não ser aquela xícara sobre a mesa
No hall do mesmo hotel
Pensado por Platão
De onde todos os simulacros derivam
Ondas de solidão vibram em círculos concêntricos
Os gestos antecedem qualquer pensamento
Enquanto fora do quadro e no coração do artista
Urge o distúrbio do mundo

*
O que fazer sem ti nessa cidade sem mar
E sóbria, logo cedo de manhã
Num domingo em que alguém metralha
Uma britadeira no coração do silêncio?
Antes os dias em que as noites
Findavam-se nas manhãs
Agora é preciso beber esse ar disfarçado de brisa
Olhar para um céu em que
Gaivotas cruzam só de passagem
Reler as cartas que não me escreveu
Imaginar tua letra dançando
Na corda bamba das linhas
Tua letra linda de alguém que talvez
Tenha o ascendente em Gêmeos
Sei tão pouco de ti
Primeiro me apaixonei pela tua letra
Depois é que li a gramática dos teus gestos

*
Um humano em silêncio é quase uma obra de arte
E se apenas olha a água correr
Como se estivesse pensando enquanto lava as mãos
É quase uma obra de arte
Desde que não se saiba o que fez antes
Desde que não se saiba o que intenta fazer depois
Um humano adulto é sempre um quase
Sustentando-se entre o antes e o depois
E o ponto de pronunciar uma palavra
No momento em que quebra o silêncio
O ar todo em volta estremece
Pronto, temos somente um humano
Prestes a desmoronar-se
De alegria, tristeza ou indiferença

*Poemas do livro “instruções para morder a palavra pássaro”, Editora Telaranha, 2022.