Amir Or nasceu em Tel Aviv, Israel, no ano de 1956. Poeta, escritor e tradutor, tem sua obra publicada em mais de 30 línguas. Sua obra é marcada pela riqueza de modelos e temas, nos quais quais estão presentes tanto questões políticas, históricas e literárias do seu país, quanto assuntos e gêneros literários de outras culturas, inclusive do Extremo Oriente. Ele usa poesia como um exercício multicultural escrito em hebraico. Com isso, participa de uma jornada inovadora, ao mesmo tempo em que reafirma o trabalho iniciado pelos poetas pioneiros de Israel.
De joelhos
Eu aqui me ajoelho, sobre uma página de confissão,
desmonto o meu discurso, tudo morto.
Um anzol passa – sem nenhuma isca
que me leve a confessar a triste verdade.
Eu não sou louco – em fogo baixo
dia a dia o meu coração ferve na panela de sua vida;
um trabalhador forçado da minha existência, odiarei
a minha tolice, na qual confio.
Escreverei então mais um poema com um punhado de pó,
no meu peito vibrarei suas cordas;
e da página cantarei “meu tempo passou” –
por certo minhas palavras sempre poderão ser lidas.
Até aqui chegam minhas palavras – deixarei a pena;
eu tive um sonho, agora é acordar
Rumo ao mundo
O espírito cai, o pequeno corpo
sacode-se embaixo com o grande corpo
quando um mar selvagem bate o fundo neles
e o entorno é o dentro –
agarra encolhe torce engole
como garganta ou intestino
a presa.
A eletricidade da dor atira-o do útero
às caras acima das coxas abertas
para o céu do quarto, e além
para o quarto do céu
que arredonda no arco do seu olhar.
Caras, caras, caras, mais caras
saídas do mar, das cidades, do ar incandescente.
Embaixo de sua pele ossos rangem trincam quebram
formigas escalam as órbitas dos olhos
paredes se transformam em paredes que se transformam –
um berço, uma banheira, uma rua, um túmulo.
Lá embaixo
um choro.
Imortalidade
Três cozinheiros
ocuparam-se com a limpeza das entranhas,
rechearam com camarões e cogumelos.
Foram doze gemas,
uma garrafa de vinho branco seco,
vinte dentes de alho,
quinhentos gramas de manteiga.
Apesar da minuciosa receita
por ele abandonada –
não faltou um pouco de talento
e improviso.
Três horas no forno,
toalha branca, velas vermelhas,
salada verde, champanhe.
O que dizer?
Ele liberou a língua e proibiu o necrológio.
Como na sua vida, havia carne e sangue,
morto, saboroso e amado.
A lua
O animal entre as minhas pernas uiva
para o animal entre as tuas pernas.
A lua entre os meus dentes uiva
para a lua no teu coração.
O animal em meu coração
fareja-te sempre.
Não perguntes
À planície sob o papel chamarás mesa.
Não perguntes de onde vieram as palavras.
Observa o mundo das folhas: tu o chamarás árvore.
Na folha da manhã faísca uma gota de orvalho.
Não perguntes como, pergunta de onde:
a forma das coisas é a forma do olho.
Poema das criaturas
O amanhecer vem para a labuta de nossa vida,
ao meio-dia as costas estão muito arcadas.
Até o anoitecer extingue-se o nosso fôlego;
de onde viemos, aonde vamos?
Eu me sento no círculo, olho ao redor,
estendo as mãos aos amigos e eles a mim.
Mas por mais que estendamos as mãos,
não tocamos um no outro.
Solitários aqui chegamos e solitário
um a um se apagará numa noite estrangeira;
lá sentaremos no círculos e de novo
estenderemos nossas mãos um ao outro à toa.
Erguemo-nos dia a dia para o trabalho de nossa morte,
ao meio-dia as costas estão muito arcadas.
Exaustos, até o anoitecer deixaremos nossas almas
para renascer na terra dos vivos.
No livro da vida lê sobre as mortes deles,
no livro dos mortos – sobre as vidas deles;
gira o círculo e nós com ele,
mãos estendidas, rostos vazios.
*Poemas do livro “A paisagem correta”, Relicário Edições, 2020.
Tradução de Moacir Amâncio