Glória Horta nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Poeta, jornalista, fotógrafa e tecelã, é Mestra em Antropologia da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Deu aulas de Tecelagem Manual durante seis anos, organizou e protagonizou diversos eventos de poesia no Rio de Janeiro e em outros estados. Na década de 1980 participou de uma série de performances poéticas, sendo autora da performance ÀS AVESSAS. Com Tânia Scher e Leila Míccolis, encenou a performance ELAS POR ELAS, em diversos bares cariocas, entre eles o Botanic. Em teatro, foi co-autora e atriz da peça ALTO RISCO. Atualmente coordena o Setor Educativo do Centro Cultural da Justiça Federal.

MEU CORAÇÃO SE ENCOLHEU LENTO E

GOSMENTO COMO UMA LESMA

Não, não vem mais.
Teu tempo passou, tua noite raiou, tua nuvem choveu.
Nosso relógio despertou faz tempo.
Nossas cartas já foram publicamente lidas, relidas,
decoradas, rasgadas, esquecidas.
Não venhas, estamos sós, não há mais estrada,
os ciganos acampam nos atalhos, têm fome
Há lodo.
Há uma areia movediça que teima
em querer te engolir inteiro.
Há cercas.
Há lama.
Há farpas pontiagudas que te espreitam, não venhas,
As trepadeiras se entrelaçaram nos caminhos,
teu rumo está perdido, faz tempo.
Os espinhos caíram ao solo,
também eles, impedem que venhas.

ADULTÉRIO

De que te adianta
guardar aqueles olhos,
se ele são feitos de vento,
de nuvens, de água?
De que te adianta
gravar outro rosto
se ele é feito de véus,
de gazes, de rendas?
De que te adianta
querer outro amor,
se ele é feito de instantes,
de partes, de tascos,
de lascas?

OS ANJOS

Em que céus
de que nuvens
brinca meu pai com os anjos?
Será que às vezes me espia?
Será que me acha?
Eu por aqui
, tão misturada com os outros ,
tão igual a tanta gente deste mundo
tão normal infelizmente,
que entre uma brincadeira e outra
meu pai e os anjos
riem de mim.

MORTE II

Volta o tempo e retomas a estrada.
Volta o tempo por magia.
Volta o tempo e engatas a primeira,
e aceleras o carro,
e escurece.
Volta o tempo e não dormes ao volante.

VOCÊ

Você tenta ler e teus olhos te obedecem
mas a cabeça voa em diferentes sentidos.
Ah, essa doença que te permite escrever,
você anda sempre pelos caminhos de dentro
, o eterno adolescente ,
você não consegue ver um político
fazendo um discurso, a não ser imaginando
como ele trepa, como ele foi menino, como ele chora
e como será, morto.

*Poemas do livro “Sangria”, Editora Achiamé, 1984.