Mar Becker nasceu em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, no ano de 1986. Poeta e escritora, graduou-se em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo e se especializou em Epistemologia e Metafísica pela Universidade Federal da Fronteira Sul (campus Erechim). Com seu livro de estreia, A mulher submersa (Editora Urutau, 2020), foi, em 2021, uma das cinco finalistas do Prêmio Jabuti na categoria poesia e conquistou o Prêmio Minuano de Literatura. Esta obra também foi indicada como uma dos melhores de 2020 pelo Suplemento Pernambuco e pela Quatro Cinco Um, revista literária da Folha de S.Paulo. Venceu também o Prêmio Ages de Livro do Ano (Associação Gaúcha de Escritores do Rio Grande do Sul), com o livro “Sal”, em 2022.
Para escrever um poema
primeiro
não o escrevas jamais
.
segundo
acerca-o em sua condição de não escrito com cuidado:
palavras ágrafas não gostam de ser tocadas, nelas um
ímpeto surge como vindo de um arbusto de dormideira,
que repele o toque
.
terceiro
se há mesmo uma distância ideal entre as mãos e o poe-
ma, então ela está ali –
no mais perto que se pode estar do arbusto
sem tocá-lo ainda
.
quarto
a dizer de outro modo: aproxima-te, mas só até onde o po-
ema vazio te pressente, em véspera. ele deverá se inclinar
assustado, deslumbrado
o rastro disso no ar –
palavra
.
quinto
abeirar é o mais antigo dos gestos
mais antigo ainda que dizer
(prefere aquele)
.
sexto
um poema faz-se a si mesmo, cruel
dói-lhe esse desvão de fogo, esse corpo de névoa
.
sétimo
escreve como amas
*
não se dizer quando rarearam as palavras
quando aconteceu de esta língua com
que escrevo, tão vasta
querer recolher-se e morrer
no instante em que por ti
o vento passa
*
poesia, minha obscuridade. poesia panos cobrindo o tó-
rax das ladras, curva no toque alongando alças nas xíca-
ras, para acossar a grande surdez. poesia, minhas terras
estrangeiras, minhas línguas inimigas. tu que me escol-
tas com os lobos da tua tristeza, tu que colheste a magnó-
lia de vidro do sexo dos que procuram amor. poesia, meu
medo e minha crueza. beijo em minhas pálpebras
ILUSÕES
Não se esquecem histórias
de ninfas, deuses, árvores
antigas, coelhos e lobos
ou escombros, hecatombes
e maremotos sobre Lisboa
A cada um desses signos,
a placa diz para a claque
rir ou chorar, mas, no escuro,
ninguém vê o caos
roendo com cara de gozo
o mais íntimos do fígado
E a claque ri e chora
Depois, cada um engole
seu estigma e apaga de vez
o teatro de sombras.
*
aquele que me ama deita os olhos em mim
sabe que tudo é brevidade, agora
tudo é rastro
aquele que me ama sabe que na mulher amada dói uma
cidade invisível
sabe também que, para torná-la visível, é preciso
acessar essa mulher à pouca luz –
enquanto ainda se confundem um no outro
ruína e sonho
*
também nomeio anjo a
sombra deitando-se nas teclas à hora em que
irrefletidamente
paul wittgenstein o pianista pôs sua
mão-fantasma
sobre o piano e tocou
e fez soar
o vento
esquecendo por um instante
o braço perdido
na guerra
*
fossem longas, muito longas
minhas unhas
em curva
(cinco ganchos de cada lado)
eu atravessaria a noite levando comigo
restos de outra
(aquela que há muito
o amor despedaçou)
pela cidade, falariam de mim
a moça que canta e caminha
de lá pra cá
como um enternecido
açougue
*Poemas do livro “Noite Devorada”, Círculo de Fogo, 2025.