Joaquim Pinheiro Pereira de Castro Caldas nasceu em Lisboa, Portugal, no dia 28 de março de 1956. Poeta, jornalista e crítico literário, foi responsável por organizar célebres encontros poéticos, como as segundas-feiras de poesia que enchiam o Pinguim Café, na cidade do Porto. Foi, também, membro e redator da Revista Metro (1987-1997). Dono de uma obra provocadora, oscilante, publicou 10 livros de poemas. Faleceu no dia 31 de agosto de 2008, no Porto.

QUE SE FREUD

aos 20 já fodes
ainda não te fodem

aos 30 ainda fodes
mas já te fodem

aos 40 nem odes
nem ais de cima

aos 50 já não fodes
mas ainda te fodem

aos 60 dizem-te
que sabes da poda

aos 70 não te fodem
porque já se fodem

aos 80 que se Freud
porque a morte

ORAÇÃO NA BOA

abaixo a caridade e o amor
parido em laboratório
e muito cuidado com o senhor
tu és pó e se não tiveres juízo
ao pó voltarás
cordeiro de deus devolve
as seringas imediatamente
nunca digas desta não snifarás
porque sobre a tua pedra
ninguém constrói a sua
não comungues dessa
olha as hóstias são ácidos
pega na escova de dentes
no cosmos e na miúda
nada será como dantes
como penitência compra
um citroen haxixe
e reza 24 prestações
faz-te à estrada põe-te na vida
por teu risco e conta.

PALAVRÃO

Não, não se fala mal
português em portugal
não se diz caralho
a torto e a direito
ou vai sempre a direito
ou só se diz quando
a coisa dá para o torto
não, não se fala mal
o português no Porto
e se um filha da puta
chama a um lisboeta
cabrão
é porque os dois o são
e por isso não é palavrão
não, não se fala mal
português em portugal
e se alguém só pensa
não diz que se foda
é porque você ouviu mal

ENCOMENDA

sábado é limpinho
visto-me para chegar atrasado
a um enterro ao domingo
por causa de um amigo
que me pergunta
o que é que fazes hoje

olha hoje preparo-me
para um engarrafamento
na próxima sexta ao fim da tarde
quero ver se não perco

só então já tontinho
rompo essa selva vilã
de gorilas que separam
o povinho do clã
e de chuveiro em punho
pergunto às avarias
como é que vão as coisas
lá pelo mundo
longo de manhã

e a menina do outro lado
responde que não é preciso
a gente sair do quentinho
e que já nos trazem a casa
à noite o mundo

PARÁBOLA DA PEQUENEZ

uma vez um portuguez à vez
tinha medo de ser alegre
e um portuguez de vez
vergonha de ser diferente

ambos tinham inveja
de um terceiro portuguez
que era burguez

ora o fato levou o primeiro
portuguez à loucura
e o segundo à estupidez

ao saber disto um quarto
portuguez que ia a passar
mandou dizer que se sentia
imensamente feliz

*Poemas do livro “Convém Avisar os Ingleses”, Quasi Edições, 2002.