Maria Elisa Carpi nasceu em Guaporé, Rio Grande do Sul, em 1939. Poeta e escritora, foi professora e defensora pública, em Porto Alegre. Foi casada com o poeta Carlos Nejar, com quem teve quatro filhos, entre eles o também escritor  Fabrício Carpinejar. Começou na literatura aos 51 anos de idade, em 1990. De lá para cá, recebeu diversos prêmios e homenagens, como a Menção Honrosa no “Prêmio Casa de las Américas” em 1999, em Cuba, e o “Prêmio Erico Veríssimo” em 1991, sendo vencedora por quatro vezes do “Prêmio Açorianos de Literatura”, na categoria Poesia. Em 2019, recebeu o prêmio Escritora do Ano da Academia Rio-Grandense de Letras. Em 2018, foi publicado o documentário Poesia Compartilhada, dirigido por Luzimar Stricher, retratando a vida e obra da poeeta.

12

Qualquer trânsito é ficar.
Receber a luz não faz
contê-la, nela contido.
Não acode retê-la,
por ela desvairado.
A arte da fuga é ali
permanecer, intenso,
até explodir a navegação
de seus raios, sem sair
de seu miolo, em surto
lírico de comoção viva.

26

Tantas vezes, incauta,
adormeci sob os parreirais
na mútua transfusão dos
sonhos. Mal sabíamos,
nas tardes mornas, da igual
destinação de meu corpo
e a alma das uvas,
a nos verter em vidros
e livros, armazenando-nos
o sabor além do compasso
da carne, na consumação
do vinho. Mal sabíamos
minha textura efêmera
e as breves uvas que tua boca
nos alcançaria. Mal
sabíamos do vigor acendido
com nossa comum destilação.
E tu vens e te incorporas
com uma lágrima apenas.

27

O percurso de um corpo
para outro são ramas
que se cruzam num toldo
de sombras e zumbidos.
São vides que se embrenham
na cisterna dos frutos.
O estalo do fogo na seiva.
O estalo da seiva nos ossos.

33

Eu vinha surpreender
a passagem do verde ao maduro,
esse aveludado que envolve
os grãos embaciando-lhes
a tez antes do desvelo colmante.
Mas sempre escapava-me
entre as folhas intrincadas
algum racismo a vê-lo
com o ritual cumprido.
Um esplendor germinado
sem mim, de minha carne
pelo faminto assombro.
E a duração além do esbulho
de ser-lhe o fermento tinto.

45

Eu não sou o erguido,
mas o madeiro e o tormento.
Eu não sou o descido,
mas a mortalha e o desfaziamento.
Eu não sou a eclosão,
mas, da luz, alva paciência.
O que enlaço desfeita,
abro pelo que me falta
ao desejante vinhador
de meu infinito escorregar.

83

Há palavras ao afundamento
e ao preparo do vinhal
intraduzíveis. Há palavras
ao aguamento, os covos
da espreita, intransferíveis.
Porém falecem palavras
à boca para o luzir das uvas.
Assim ao amantes, palavras
aos prefácios e um só epílogo
ao farto silêncio, nupcial.

94

Interminável é o tempo
que esvai entre o punhal
e o cordeiro. Entre o punhal
e a pomba. Entre a lâmina
e o balido. Entre tal fio
e o arrulho. Intercalam-se
beirais e uma cintura
de caminhos da colina
a seus jucundos pastos.
Porém, instantâneo raio
é o tempo jazido do corte.
Acaba antes da morte.

*Poemas do livro “As Sombras da Vinha”, Editora Bertrand Brasil, 2005.