Álvaro Mutis nasceu em Bogotá, Colômbia, no dia 25 de agosto de 1923. Poeta, jornalista, romancista e ensaísta, foi um dos maiores nomes da literatura hispano-americana do Século XX. Recebeu o Prêmio Cervantes, considerado o principal prêmio da língua espanhola, em 2001; o Prêmio Príncipe de Astúrias de 1997; o Prêmio Médicis, na França, em 1989. Faleceu em 22 de setembro de 2013, na Cidade do México, no México.

VII

Giram, giram
os falcões
e no vasto céu
sobem no ar de suas asas.
Ergues o rosto
segues seu voo
e em teu pescoço
nasce um delta azul sem saída.
Ah! distante!
Ausente sempre.
Gira, falcão, gira;
o que dure o teu voo
durará este sonho em outra vida.

IX

LIED MARINHO

Vim para chamar-te
às falésias.
Lancei teu nome
e só o mar me respondeu
do leite instantâneo
e voraz de suas espumas.
Pela desordem recorrente
das águas cruza teu nome
como um peixe que se debate e foge
para a imensa distância.
Para um horizonte
de menta e sombra
viaja teu nome
rolando pelo mar do verão.
Com a noite que chega
regressam a solidão e seu cortejo
de sonhos funéreos.

DO CAMPO

Ao passo dos ladrões noturnos
opõem a invasão das grandes vagas de febre.
Ao choque das barcas contra o cais,
o sobressalto de um longínquo toque de corneta.
À tíbia luz do meio-dia que levanta o bafo nos pátios,
o grito sonoro das aves que se debatem nas gaiolas.
À sombra acolhedora dos cafezais,
o murmúrio dos anzóis no fundo do rio turbulento.
Nada altera a serena batalha dos elementos
enquanto o tempo devora a carne dos homens
e os acerca, miseravelmente, da morte, como a inebriados
.                                                                                              animais.
Se o rio cresce e arranca as árvores
e as carrega majestosamente no seu dorso,
se no trapiche o foguista copula com a mulher
enquanto o mel borbulha como um ouro vegetal e magnífico,
se com uma grande algazarra podem os mineiros
barrar a corrida do vento,
se estas e tantas outras coisas sucedem por sobre as palavras,
por sobre a pobre pele que recobre o poema,
se toda uma vida pode sustentar-se sobre tão vagos elementos,
que afã nos move a dizê-lo, a gritá-lo de forma tão inútil?
Onde está o segredo desta luta estéril
que nos exaure e leva mensamente à tumba?

CADA POEMA

Cada poema um pássaro que foge
da região marcada pela praga.
Cada poema uma roupagem de morte
pelas ruas e praças inundadas
na cera mortuária dos vencidos.
Cada poema um passo para a morte,
uma falsa moeda de resgate,
tiro certeiro no meio da noite
perfurando as pontes sobre o rio
cujas águas dormidas perambulam
dos velhos bairros para as cercanias
onde o dia prepara suas fogueiras.
Cada poema um rígido contato
do que repousa na pedra das morgues,
ávido anzol que sôfrego percorre
o liso limo das frias sepulturas.
Cada poema um náufrago desejo,
ranger de mastros, estalar de enxárcias
no rude andaime que sustenta a vida.
Cada poema o estrondo do derrame,
sobre o gelado ronco do oceano,
da branca estrutura do velame.
Cada poema invadindo e esgarçando
a triste teia da aranha do tédio.
Cada poema, de um cego sentinela,
o santo e senha de sua desventura
num grito à noite escura e sem resposta.
Água de sonho, nascente de cinza,
pedra porosa de entre matadouros,
tronco encoberto pelas sempre-vivas,
metal que dobra pelos condenados,
óleo de extrema-unção de duplo gume,
sudário cotidiano do poeta,
cada poema esparge sobre o mundo
a amarga semente da agonia.

BREVE POEMA DE VIAGEM

Da plataforma do último vagão
te absorves na fuga da paisagem.
Se ao passar por uma avenida de eucaliptos
notaste como o trem fingia entrar
numa catedral cheirando a febre e chá;
se vestes uma blusa que entreabriste,
por causa do calor,
deixando à mostra uma parte de teus seios;
se o trem continua descendo
paras as ardentes savanas onde o ar se apaga
e as águas exibem uma nata verdolenga
que denuncia sua extrema paragem
e a inutilidade de sua presença;
se sonhas com a estação final
como um grande recinto de vidros opacos
onde os ruídos têm
o eco insone dos hospitais;
se jogaste ao longo da estrada
a casca murcha de frutas de alva polpa;
se ao mijar deixaste sobre o corado saibro
a marca de uma fugaz umidade
lambida pelos gusanos do sol;
se a viagem persiste por dias e semanas,
se ninguém tem fala e, dentro,
nos vagões lotados de negociantes e romeiros,
te chama por todos os nomes da terra,
se assim é,
não terei esperado em vão
sob o breve lintel do clorofórmio
e entrarei amparado por uma vaga esperança.

ANOTAÇÕES PARA UM FUNERAL

II

Batalhas    batalhas    batalhas
que percorrem a terra com pressa de animais sedentos
ou sementes estéreis de instantâneas belezas.
Trapos que o vento embaralha
oliva   branco   cobalto   púrpura
seiva confusa da guerra, da humana conquista
de territórios sob um céu antigo
protetor de legiões – couraças ao vento da tarde,
rígidas estátuas de violência submergidas em bárbaros vapores –
batalhas sem voz, batalhas à meia-noite
em caminhos alagados, entre carros atolados
num espesso barro de milênios

ESTELA PARA ARTHUR RIMBAUD

Senhor das areias
percorres teus domínios
e do mirador
da torre mais alta
expedes tuas ordens
que vão perder-se
no silencioso vazio
do estuário.
Senhor das armas
ilusórias, faz tanto tempo
que o olvido trabalha
teus poderes,
que teu nome, teu reino,
a torre, o estuário,
as areias e as armas
se apagaram para sempre
da gasta tapeçaria
que as narrava.
Não agites mais
teus surrados estandartes.
Na quietude, no silêncio,
hás de internar-te
abandonado
a tuas redes funéreas.

*Poemas do livro “Poesias”, Editora Record, 2000.
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti