Antonella Anedda, nascida em Roma em 1955, é poeta, professora e tradutora, reconhecida como uma das vozes mais marcantes da poesia italiana contemporânea. Suas obras já foram traduzidas para o inglês, espanhol, francês e alemão, ampliando seu alcance internacional. Formada em História da Arte na capital italiana, obteve doutorado pela Oxford University e recebeu o título de doutora honoris causa pela Université Sorbonne IV. Lecionou na Università di Siena e atualmente ensina na Università della Svizzera Italiana. Desde o início da década de 1990, vem publicando volumes de poesia que consolidaram sua relevância literária.
janeiro, de noite
Noite no altíssimo ano de janeiro, noite a pique
sob um único sino deslaçado
e o raio de sombra jaz
no corpo do pombo
rodeado de geada
imóvel em seu sonho sem garganta.
Eu também sonhei com esforço, com paciência, hora após
hora, cada ausência minha, da vida. Para cada nome um
fosso. Fossos próximos e vazios, preparados há não muito
tempo, iluminados por uma luz rasante. Só no final do
sonho, entre o sono e a vigília, encontrei a coluna até bater
o queixo no chão. De repente, eu estava no lugar de tudo e
lentamente com lenta chuva de terra o meu fosso se enchia
apaziguando-as, de todas as penas, de todas as mortes.
julho, de noite
Para que o mal se descomponha como o hamster enterrado
numa caixa de sapatos na terra da horta.
Para que me chegue esta noite o susto destinado a outros.
Vejo-a, esta mulher que por horas se fixou na televisão
ligada e agora grita contra um outro corpo na penumbra
imóvel na poltrona sem cor.
setembro, de noite
Ora só a linguagem pode redizer aqueles gestos
escrever devagar respeitando seu ardor com cautela
fixando pra que restem ainda neste quarto
as grandes sombras de então.
Choque ainda o teu peito contra o meu
pois é este o único vestígio do amor
o outono que replicava estrelas
quase de um mundo igual
a janela, a moldura do abeto
a dolorida retenção das costas.
novembro, de noite
Até mesmo agora vejo um gesto nupcial
depois da imensa distância deste lento verão
no arco de suas hastes amargas
depois dos anos que adiante
barraram o amor para que não se perdesse
até perdê-lo atenuado contra a relva.
Hoje é uma noite de chuva.
Podemos atravessá-la em dois diferente clarões sem luz
dizer, tocando a gélida borda de um corpo
que tamanha distância não foi mesmo um erro
se cingiu e se soltou secretamente
todo irreal desejo.
para Mario Mormile
Não é verdade que de novo o quarto estrilará no vento
como agora entre os pássaros do outono
que bastará escolher os acenos
e oscilando na cadeira pensar
que a chuva disperse
o mal que se tem numa tarde inteira.
Não será a ausência de fendas de cada vida
as folhas multiplicadas nos sótãos
o tremendo nos ouvir curvos uns sobre os outros
enquanto arrepiando corremos para casa.
Ninguém nos fará percorrer de nova a ferida
pra frente e pra trás sem fechar seu sulco.
Teremos de aprender, uma única vez:
ficar quietos
como quando no inverno há longa falta de luz
compreender que não houve ofensa
que a sombra nos atingiu indistinta
vazia – e sem ódio.
*
Pálida noite nos mantinha no colo
e a cidade desfocava suas luzes
entre a água dos canais sem movimento. Pessoas talvez rissem
iam mais velozes do que nós rumo a casas vizinhas
em lugares só delas. Estrelas guardadas
as estrelas num campo altos lumes noturnos
tal olhos desviados tal o breu que de chofre
nos atordoava. Pálida noite e frio em negras vielas
onde eu te pedia e ainda peço: afaste aquela sombra
deixe que só eu a leve no tempo
que o silêncio me baste e não me escorrace
para o vento de terra que me chama.
*Poemas do livro “Noites de paz ocidental”, Editora 7 Letras, 2025.
Traduções de Patrícia Peterle e Andrea Santurbano