António Gabriel Maranca Osório de Castro nasceu em Setúbal, Portugal, a 1 de agosto de 1933. Poeta, escritor e advogado, era sobrinho paterno da célebre autora Ana de Castro Osório. Reconhecido como o poeta do amor e da fulguração, dos afetos e dos silêncios, iniciou a sua trajetória literária na década de 1970. Com José Bento, dirigiu um suplemento de poesia no Jornal de Letras e Artes. Faleceu em 18 de novembro de 2021.
SONHEI QUE VIAS
Sonhei que vias
a encarnação dos teus mortos
e tu própria, exausta, regressavas
como soterrado mineiro.
Mas eu não via Deus
nem me falavas: rendia o teu lugar.
Pesadelo era a eternidade.
TRANSFUSÃO
A um desconhecido,
a alguém fraterno
deves esse denso,
quase negro,
sangue transcorrente.
E tenho amor
por quem entrou nas tuas veias.
CONSTRUÇÃO
Em teias de ferro sobe por seis pilares,
a pouco a pouco das nuvens se aproxima.
Os gentis guindastes,
as betoneiras, odres de ferro galopando,
as cordas que vibram como serpentes,
os tijolos que trepam cautelosamente,
o celeste poalho do cimento
e a mão dos homens
elevam enfim
ao cume
a bandeira do sangue.
Iguais a aves no alto dos andaimes,
com ardor de zangão crescem sobre a jovem:
pintam-na de rio ou de sol ou de morango maduro
e dão-se, transformam.
MAIAKOVSKI
Aos trinta e seis anos
um tiro no coração.
Assim
crucificaste
este século.
Emigrante
doutro tempo,
acertaste
onde era preciso
tocar,
pôr as mãos,
encontrar o futuro,
Maiakovski.
RETORNO
Sou um pai, diz o menino
pondo nos pés sapatos grandes.
Por horas sonhas isso de ser homem
e cansa-te. E sem mágoas voltas
realmente à infância.
WELFARE STATE
Dos filhos cedo se apoderam,
a água foi envenenada,
o próprio pão os envergonha,
têm a alma aprisionada
ou por eles mesmo destruída
ou por coisas já trocada.
E nada esperam que lhes valha
depois da vida em morte transformada.
O PASSADO
Olha para trás o monstro corrompido
por trinta anos de degredo,
por tanta ladainha, tanta gente,
tamanhos e tamanhos infortúnios,
lentamente destruídos por tanta
ocultação, desprezo, tanto medo e raiva,
que não encontra o próprio rosto de criança.
METRO
Perto tinha de si
gente exausta
e livremente
contemplava
tantos rostos,
tanto desespero.
Nas mulheres do campo
batia o seu coração
para ajudá-las na saída;
e pelos olhos dos namorados
pedia licença
de passar
como um Inca pelos rios.
Era moço de recados,
servente, outra vez criança
num comboio,
canceroso
que vai para o hospital,
o aleijado que estende
ali a mão,
soldado que se despede,
emigrante que regressa
mais humilhado.
E gota infortunada
ou lágrima
escondida
ao lado do seu povo.
*Poemas do livro “A Luz Fraterna – Poesia Reunida (1965 – 2009)”, Editora Assírio & Alvim, 2009.