Carlos Alberto Carranca de Oliveira e Sousa nasceu em Figueira da Foz, Portugal, no dia 9 de Novembro de 1957. Poeta, escritor e professor, morou a maior parte da vida em Coimbra, onde também trabalhou como ensaísta, animador cultural, cantor e declamador, tendo sido um dos principais autores e intérpretes do “Fado de Coimbra”. Tornou-se um dos maiores investigadores sobre o escritor Miguel Torga, tendo sido sócio-fundador e diretor do Círculo Cultural Miguel Torga, e responsável por duas homenagens que lhe foram feitas, uma a nível nacional e outra na cidade de Cascais. Faleceu em 29 de Agosto de 2019 na cidade de Lisboa, aos 61 anos.

Deus no seu lugar

Eu moro num lugar
remoto, primitivo,
onde algumas casas
lembram rústicos palácios
e outras casebres roídos pela fome.

É Deus o ponto de partida,
o cenário, a voz, a própria vida,
a sua não-existência consentida
apregoando um cepticismo inquieto,
cansado de dogmas e de ritos.

Inútil e perfeito
vive na ausência
de ser único,
coletivo
testemunho da fé elementar.

Memória ausente

O que me aflige é esta inconsciência em que vivo de mim próprio,
esta infinita distância em que me acho e a que chamo eu.
Eu, memória de mim que não vivi
Eu, eternidade sem tempo.
Eu, filho de mim próprio de tanto imaginar.
Eu, vontade de ser identidade que se assombra.
Eu, fealdade e beleza.
Eu, filho pródigo do Homem.

Manifesto

Quem nos vem salvar dos livros gigantes
.    [que emolduram as janelas dos quartos dos hospitais?
Quem nos vem salvar da mentira?
Quem nos vem salvar do falso?
Quem nos vem salvar do mal?
Cumpramos os verdadeiros.
Que só nos resta o papel de parede
a dizer, façamos por merecer
esses amigos onde o tempo escreve.
Cumpramos a liberdade que nos resta.
Faz por não esquecer!

À memória de Walt Whitman

Eu, solitário, a oeste, canto o velho mundo dos vencidos,
daqueles que sangram dos ouvidos.
Vitórias não, mas a fé dos perdidos,
dos que vêm à tona após o sofrimento,
o valor rústico de dentro dos povos pela doença
dos muros erguidos à fraternal inquietação de ver morrer.
Eu, solitário, a oeste, canto o Velho do Restelo a apodrecer.

Meia-noite

Estamos os quatro recolhidos cada um
em sua concha de tristeza
ressonando a quimioterapia.
Há um que há muito se fez padre e médico
agora doente crônico leucemia pneumonia que delira.
E outro que observa a sua veia trespassada
e sobre a doença dos outros não se cala
e outro ainda que desmaia os olhos para o teto
e ninguém sabe se dorme de vigília.
E estamos os quatro deitados ao comprido
recolhidos com fantasmas pelo meio.

O princípio do mundo

É uma história sem fim nem princípio
foi feita sem narrador e a moral é perfeita
saída da obscuridade nada vale
sem céu nem inferno
é um empecilho para quem queira conhecê-la:
sem sexo sem reprodução sem vida
límpida como a alma de uma enguia
nada do que é impuro é sua raça.
Estou feliz por conhecê-la.
Não escarneço dela
suas palavras não são nem música nem rima
apenas quietude e ócio sem voz
e o valor que suporta são crostas de sangue seco
a abrirem-se nas minhas mãos
de modo idêntico ao princípio do mundo.

*Poemas do livro “Poemas Absurdos / A Palavra e o Mundo”, Editora Talentilicious, 2020.