José Paulo Moreira da Fonseca nasceu no Rio de Janeiro, em 13 de junho de 1922. Poeta, escritor, teatrólogo, pintor e crítico de arte, foi um dos mais importante nomes da poesia brasileira das gerações dos anos 40 e 50, tendo sido indicado algumas vezes para a Academia Brasileira de Letras. Venceu, em 1974, o Prêmio Jabuti de Poesia, com o livro “Luz e Sombra”. Faleceu no Rio de Janeiro, no dia 4 de dezembro de 2004.


O CARTÓGRAFO

No azul desse mar distante
Porei uma nau feito as que de lá me trouxeram novas
De serpentes entre as algas
Que à sombra dos mastros igualmente vou desenhando
E ainda uma diurna costa com verdes palmas,
Flores rubras, pássaros e lagartos
Que sejam ornamento e nos falem da estranheza.
E porei, além, uma póvoa de aborígines
E mais além, porque tudo ignoramos,
Cumpre-me deixar a carta em branco,
Sem palavras nem contornos,
Tão-só indagação, casta e silenciosa,
Como a do papel em que escrevo.

O DONATÁRIO

Aquém: o mar.
No poente, vejo a terra que se perde
Na inquieta sombra das montanhas.

Não sei dar nome aos pássaros e às frutas
Que o gentio oferece. Tudo é estranho e se esquiva
Ao meu império. Eu mesmo já não sou o que era
E em sobressalto me indago, sem que tenha resposta.

BAILARINA
(Sevilha) A João Cabral de Melo

A pausa
.              brusca
talvez um gesto que meditasse
o seu próprio ímpeto
.                                   talvez aquele silêncio
antes do touro partir contra o ardil do matador
tudo imóvel e se movendo
.                                        O resto será apenas consequência

A UM HOMEM QUALQUER

Tu que vês a lua traçar o arco da tarde
e tens a certeza de que o sol prossegue seu conciso incêndio,
tu que já sentiste o vidro do mar,
sabes o gume do tempo, o rumor no pulso, o gosto do fel e do pão –
.                                       consentes prender teu grande cuidado
em cifras, jogos, adições inertes, nomenclaturas?
.                         Aceita! aceita tudo
como um fardo, talvez uma paga,
um resgate,
.                     todavia rebela-te
e iça as veias quando o vento vier
.                                                 que o resto é indigno de ti.

TERRENO BALDIO

São urtigas, são ervas inúteis, um colchão que se desfaz,
são tijolos e cal, a áspera ferrugem e seus vermelhos úmidos,
um rumor de insetos, velhas revistas, o jornal de qualquer data esquecida,
vidro, fezes, ladrilhos sem muro, rodas imóveis,
chaves para nenhuma porta, são coisas que ninguém vê,
ninguém deseja,
.                              coisas tristes, loucas, mortas.

EPIGRAMA

Nos derradeiros corredores
sempre resta algum silêncio. Temerias
que a luz invadisse estas salas tão perdidas
em teu ermo.
.                       Distrai-te, enlouquece, morre –
.                                      involuntário guardião!

Poemas do livro “Antologia Poética”, Editora Leitura S, A.