Milena Martins Moura nasceu no Rio de Janeiro em 2 de outubro de 1986. Poeta, editora, tradutora e pesquisadora, é Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Semifinalista do Prêmio Jabuti 2024, na categoria poesia, com o livro “O Cordeiro e os Pecados Dividindo o Pão”, e finalista do Prêmio Sesc 2025, com o romance inédito “…metâmeros…”, ela atua como editora da revista Cassandra, dedicada à publicação e à promoção da literatura e da arte de mulheres, e da Macabéa Edições, editora totalmente voltada à publicação de obras de autoria feminina. Em 2022, organizou a antologia “43 Poetas Neurodivergentes” (Toma Aí um Poema) como parte da iniciativa CEMana de 22, coordenada pela poeta Jéssica Iancoski. Em 2023, participou como poeta e coordenadora editorial da antologia Versão Brasileira: a Voz da Mulher, que contou com a curadoria de Diana de Hollanda e a participação das poetas Bruna Mitrano, Claudia Roquette-Pinto, Danielle Magalhães, Heleine Fernandes e Maíra Ferreira.
eterno retorno
criancinha dos óculos redondos
quando ainda não era moda
do cabelo crespo atado num coque
temperado com muito bozano azul
pra evitar
[a raiva o riso o cuspe
os pés
a bola na cara
nas costas
no estômago
e a cegueira
cegueira]
sentada na sombra
a louca
sendo infeliz num cantinho
olhando prum céu desabitado
e conversando com um deus ausente
pra pedir
por favor senhor
me faça acordar doente
ou só dormir
dormir
criancinha
o mundo tá zoado
tudo que você aprendeu na aula de história
e perguntou
como canalhas os adultos do passado
deixaram aquilo acontecer
tá acontecendo
deitar você no colo
e dizer
calma
mas não tanto
lei da física
a tia morreu no dia de iemanjá
o avô no meu aniversário
o fusca queimou num incêndio
meus 3 anos queimaram também
o canário não cantou numa manhã
de 89 virou
adubo de samambaia
antes que eu pudesse me despedir
minha gata branca nunca foi morar em fazenda
todo e cada ser vivo nesta terra
nasce sozinho
morre sozinho
e eu
que nasci
e não estou morta
e não estou viva
gosto de pensar que é esse
o estado natural das coisas
e ser infeliz num cantinho
é nada mais do que manter a entropia
prescrição médica
a síndrome compulsiva
de escarafunchar o passado
leva o indivíduo
a procurar a dor
por trás dos dentes
na fotografia
e a falha de atitude
nas lembranças
de um dia feliz
tem também como sintoma
falta de ar e palpitações
à incerteza de ter sido
tudo um erro
que o doente apenas agora
consegue entender
acometidos por essa condição
desenvolvem culpas
que não podem ser explicadas
na terapia
e apatia quanto à expectativa
de viver mais
porque assim haverá mais lembranças
pra escarafunchar
o futuro
porque vida é memória
e memória se revisita
tendem a gostar
de lugares altos
e pouco movimentados
onde possam concentrar-se
no agora
e na vontade de que esse segundo
seja o último
não são conhecidos medicamentos eficazes
a sabedoria popular
indica quebrar espelhos
Eu menti, cena 7
no escuro do armário
meu rosto no espelho
me parece
real
Último ato
dentro do armário
chora uma criança sem dores
chora porque habituada à constância das dores
. acha que morreu
Último último ato
[cai o pano]
pego do chão com o pé
seco os olhos e os pratos sujos
alguém precisa lavar a louça enquanto eu bebo a tempestade
*Poemas do livro “o carro de apolo capotou no horizonte”, Macabéa Edições, 2025.