Leonardo Piana nasceu em Andradas, Minas Gerais, em 1992. É escritor e servidor público. Seu romance de estreia, “Sismógrafo”, venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, foi finalista dos prêmios Jabuti, São Paulo de Literatura e Mix Literário e teve os direitos vendidos para o cinema. “Tarde no planeta”, seu segundo romance, também venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Em 2025 foi premiado com o Prêmio Senac de Literatura, categoria poesia, com o livro “escalar cansa”.
*
quem escala uma rocha escala
a água que correu por suas fendas num dia de verão
a poeira milenar da terra
bilhões de anos de um planeta em mutação escala
outra era geológica uma era
de dinossauros e seres mitológicos escala
o calor dos corpos que a escalaram antes
suas marcas o movimento de placas tectônicas
intempéries cavando agarras
quem escala está sempre tocando
o desgaste do tempo está sempre dizendo
a si mesmo que é possível encontrar um jeito
de escutar o silêncio mais antigo
de tocar o mistério do mundo
mineral
*
queria escrever um poema que despertasse
ternura
esta que dorme como um andarilho
em qualquer lugar
um poema que fizesse as pessoas
olharem para as palavras
darem um risinho e encherem os olhos
pensando nas suas avós
e que nada escrito se compara
à imagem delas dizendo ai sentei
e depois ligando a TV
para assistir a um programa qualquer
contando histórias das amigas que sobraram
sem prestar atenção na tela
as avós sendo levianas
porque elas têm essa liberdade de serem
levianas
a cultura não exige muito delas
exceto que sejam elas mesmas
velhas e detentoras
de inacreditável sabedoria
esta sabedoria das coisas mínimas
do ritmo das plantas e das colheitas
dos artifícios da casa
do funcionamento dos órgãos internos
a sabedoria do lado mais sombrio
do coração dos homens
elas sabem da morte
e desviam da morte com elegância
coisas que apenas o tempo
e apenas às mulheres
pode ensinar
*
aquiles disse que antes de virar poeta
quis ser instrutor de escalada na serra do cipó
mas como de tudo na vida
acabou desistindo
que pena
seria bonito ganhar a vida
ensinando às pessoas
a leitura das pedras
a sabedoria das quedas
o que fazer com as mãos
*
diz-se em latim o ponto mais difícil
de uma via de escalada crux
como se o português que faz tanto por nós
não desse conta de traduzir
todas as vezes que aquiles
cair no mesmo ponto
– nunca vou escalar esta via – ele se frusta
incorporou-se crux ao dialeto dos escaladores
mesmo que aquiles se recuse a dizê-lo
– só falo grego – ele diz
aquiles prefere dizer nó em vez de crux
porque toda vez que ouve crux se lembra
do cruzeiro do sul
que não estava lá
quando olhou à noite para o céu nublado
quando mais precisou
guiar-se pelas estrelas
esquecer a guerra
voltar para casa mesmo que casa
consistisse para ele num pensamento
muito abstrato àquela altura
*
não há nenhuma foto do meu nascimento
ou do dia quando andei
pela primeira vez
a única testemunha dizem
foi minha avó
ninguém escreveu sobre o dia quando meus pés
experimentaram a dureza do mundo
o mundo dizendo mova-se
mova-se garoto
e minha avó experimentando
estar quieta
entre nós o abismo
do tempo e o braço dela estendido
– eu não me lembro –
para me segurar caso eu
caísse
o braço dela meu parapeito
se a minha avó soubesse
provavelmente teria escrito
que um poema é como
o primeiro passo
de um menino
já eu acho que um poema
está mais para o braço dela estendido
para conter minha queda
uma borda para o mundo
acabei de nascer
fique comigo
ainda vou precisar muita da senhora
eu diria a ela
se eu soubesse falar
mas demorei para aprender
– ela demorou para me ensinar –
que uma voz dá trabalho
vale um regresso glorioso do espaço
leva tempo para conquistar
*
depois que estive na casa de pedra
pela primeira vez sonhei
com um muro altíssimo
à minha frente
e eu precisava
não atravessar o muro
mas subir até o topo
depois descer e subir
outra vez
o sonho se repetiu
– como uma barata tonta – você disse
– não – eu disse –
como um poeta
*Poemas do livro “escalar cansa”, Editora Senac Rio, 2025.