Antonio Celso Borges Araújo nasceu em São Luís, Maranhão, em 18 de maio de 1959. Poeta, músico, letrista e jornalista, deixou sua marca na cultura maranhense e nacional. Atuou como curador da Feira do Livro, diretor de jornalismo da TV Mirante e assessor de imprensa do Festival BR-135. Foi também o idealizador de projetos inovadores como Poesia Dub, A Posição da Poesia é Oposição e Sarau Cerol.
Autor de 11 livros, sendo cinco dedicados à poesia — entre eles No Instante da Cidade (1983), Pelo Avesso (1985), Persona Non Grata (1990) e Nenhuma das Respostas Anteriores (1996) —, Borges construiu uma obra marcada pela inquietação e pela experimentação estética.
Na música, desempenhou papel fundamental ao aproximar e incentivar novos talentos da MPB, como Zeca Baleiro e Chico César, além de firmar parcerias com nomes consagrados como Raimundo Fagner e Fausto Nilo.
Antonio Celso Borges Araújo faleceu em 23 de abril de 2023, em São Paulo.
gottfried benn
escrevia poesia
e
fazia autópsia de cadáveres
nazista arrependido
rasgou peitos abriu crânios
e
costurou as asas dos anjos de augusto
paisagem urbana
ela atravessa na frente do carro às 4h20 da
tarde enquanto escuto beethoven no rádio.
é mais rápida que um rio mas quando passa
incendeia e treme tudo em volta. por um
segundo a menina com o jeans colado no
corpo me atinge como um raio, entorta os
ponteiros do relógio da esquina e sorri. tudo
isso em segundos enquanto escuto a pastoral
e o trânsito tropeça e desaba sobre a tarde na
praça pedro segundo. aí desço a montanha
russa, eu e beethoven. péssima companhia.
a voz da perna do rei
quando tava muito triste
roberto ouvia o divã
quinta faixa do disco de 1972
preferia o vinil arranhado
como um trem que sangra na ferrovia
descarrilhando numa praça o sol do meio dia
arranco o trilho dessa lembrança
como um escafandrista sufocado
em noite de lua cheia
uma perna de pau pendurada
numa coxa que sente falta da perna que falta
a direita
que treme no linho branco
de um menino de oito anos
falo como que atravessa uma maçã
com a farpa de minha mecânica
natureza viva
pêssegos lilases
pitombas rubras
muricis roxos
sapotis, abricós, buritis pretos
camapus celestes
uvas pálidas rodopiando velozes
nos lábios dos camaleões
bananas laranjas
laranjas azuis
limões púrpura
tomates magenta
abacates vermelhos
mangas cor de caqui
caquis cinzentos
azaleias cor de café
arco-íris branco
wanted
gordura do sal
sol da noite
nuvem do chão
cheiro de flor sem cheiro
sangue dos limões
leite de juçara
poeira do céu
pra dar sentido, talvez
ao que não existe
existindo
a última entrevista de clarice
olhos acesos
cigarro entre os dedos
a bolsa no colo
a morte dentro da bolsa
água viva
visagem
um rato voa
sobre as areias do saara
um pombo
– rato que voa –
se arrasta com as asas
de sua metáfora
carne rara
meus mortos enterrados
nas covas de minha cara
*Poemas do livro “ainda”, mórula editorial, 2024.