Lolita Campani Beretta nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1985. Atualmente vive em Ubatuba, no litoral de São Paulo. Seu primeiro livro, “dispersar todo sonho”, saiu pela editora Quelônio em 2022. Além de escrever, desenha o mar e as montanhas, e também tirinhas da personagem “Melancolita”. “Caminhávamos pela beira é seu segundo livro”, publicado em 2023. Com essa obra ela foi semifinalista do Prêmio Oceanos de 2024.
os pés pelas mãos
formando uma garra com o espaço entre o dedão e o segundo dedo, é possível
pegar com o pé a peça de roupa que caiu no chão.
curvando-se os quatro dedos menores para a frente, enquanto o dedão se aproxima
do dorso, é possível fazer um joinha com o pé.
apesar dessas utilidades, costuma-se pedir desculpa por ter trocado os pés pelas
mãos, mas quando isso significa que se cometeu um erro, e não por utilizá-los das
formas mencionadas.
as mãos pelos pés
um corpo pode se manter invertido alguns sobre as mãos, como se
fossem pés.
invertido o corpo, cada pé fica em cima do calcanhar, este em cima do tornozelo,
este da perna, e assim sucessivamente até chegar à cabeça.
com o tempo, o pé no topo do corpo esfria e pode adormecer, precisando se sacudido
para recuperar consciência.
mas um corpo invertido é bom para:
circulação;
concentração;
conceber uma vida;
bom humor;
orgasmo.
pé ante pé
embora a alternância dos pés tenha como principal objetivo a locomoção, ao movimentar
um pé após o outro em passos lentos, espera-se, principalmente, circular
por espaços sem que outras pessoas o notem, enquanto a caminhada padrão costuma
ter êxito garantido, sua performance vagarosa com o objetivo da invisibilidade
nem sempre conta com a mesma sorte.
mural de recortes
artistas de tevê, mulheres de biquíni na revista Caras, campos de produção agrícola,
tomates, salada sobre um prato, uma charrete antiga, o príncipe William ao
lado da esposa, dicas de como preparar alho-poró, “o novo ingrediente para a
longevidade”, jogadores de times rivais, técnicos de times rivais, anúncio de um trator
antigo à venda.
um casal de vinte e poucos, década de 50,
a mãe e os dois filhos na praia, 1962,
a mãe, o pai
e um filho,
mesma praia,
poucos anos depois.
duas perguntas
e tu tem um namoradinho?
quem é esse homem deitado comigo?
festa
numa família
por tradição
há quem comece a despedida
*Poemas do livro “Caminhávamos pela Beira”, Aboio editorial, 2023.