Roberta Iannamico nasceu em Bahía Blanca, Argentina, em 1972. Poeta, cantora e compositora, além de poesia, escreveu livros de literatura infantil, adaptações de contos infantis clássicos e livros didáticos para professores e alunos do ensino fundamental. Coordena oficinas de composição musical para crianças e adultos.

ESTRADA

Parávamos na estrada
minha mãe e eu
corríamos para fazer xixi
descíamos
pro túnel
embaixo da estrada
nos abaixávamos
dava vontade de rir escutar os carros
em cima da gente
com a bunda de fora
e aí bateu
um vento
e me molhei
a gente ria
a gente ria.

DEPOIS DO PARTO

Estreio uma camisola lavanda
a mesma seda do lírio
de um lado a pele
frouxa sobre a carne inchada
do outro lado o espelho
do banheiro
do hospital.

TODA VEZ QUE EU SAIO

Uma parede
que fica logo
na porta da minha casa
diz te amo
toda vez que eu saio
leio
na diagonal
tem
a esquina do lanterneiro
com o lanterneiro
sempre
no meio do portão
a parte de cima da parede
tem pontas
de garrafas quebradas
para que os gatos
não façam ninho entre os ferros
parece um palácio.

*
Era um animal
todo de fogo
lindo com seu pelo
despenteado
sua presença
se ouvia de longe
em meu coração
como palitos que se quebram
de noite
não podia se esconder
em lugar nenhum
mesmo dormindo
continuava brilhando
pobrezinho.

*
Todos começamos a parecer com nossas mães
quando o tempo passa
ficamos grandonas
mimosas
o olhar
mais famoso
como o de alguém que pode
se defender de tudo
como o de alguém que está
apaixonada por si mesma
nos momentos
de solidão.

*Poemas do livro “Quitanda”, Coleção América Invertida, 2024.
Tradução de Estela Rosa e Luciana di Leone