Raquel Nobre Guerra nasceu em Lisboa, Portugal, em 1979. Poeta e escritora, é Mestre em Estética e Filosofia da Arte. Venceu alguns prêmios literários importantes, como “Primeira Obra do PEN Clube Português”, em 2013, com o livro “Groto Sato” e o “Prêmio Novos”, no mesmo ano. Em 2017 foi semifinalista do Prêmio Oceanos.
PURA
Esta gente que colhe água para derramá-la
compassivamente sobre a chaga
esta virtuosa carraça da solidão pública
com redentor cigarro público também
esta solidão assediando cretinos e sábios
esta deserta implausível cartada
grande força erguida a prumo
esta gente sobre esta imperial e sopa à frente
esta gente que se levanta de peito e escreve
para não matar ninguém.
NOITES BRANCAS
Os nossos mestres estão mortos, insisto
para quem jura que há-de salvar isto
pela literacia, vazias barrigas mãos gitanas
dias cobertos de cimento quente
lembrando a médica teórica de um grego
foi o oráculo enganando que se enganou
estava torto etc, sublinho a transe que facilita
um cerveja no inferno, noites brancas
para quem jura uma presença exuberando
impondo ao homem a própria vida:
adunámos corpo a corpo multiplicamos
fornicamos até ser virgem a porcaria
deitamo-nos fora com um murro sensualmente
abrimos as persianas sobre isto
muitos paraísos seguidos de paraísos
e muita merda a cobrir-nos por cima.
TRAPÉZIO
Subir por aquele rapaz acima
e chamar deus à vontade
de subir.
AÍ NA ERVINHA RESTAR
Aqui estremeço à sabedoria dos tolos
aqui certo clima de nojo e uma galeria viva
de absurdos para a visão integral da coisa
peçam-se óculos para ver melhor
peçam-se janelas para ver o mar
eu estarei certa à chuva própria desse estado
adequada e a direito despejando-me aqui
chamo a minha mãe ao corpo não tenho nada
preparado tenho um telegrama visual e chamo alto
e chego para provar que este mote é só
um meio de porte
há-de encastelar em areia o finalismo rente aos dedos
subir-me à boca subir em bando à do louco onde
terei posto a minha
e aí na ervinha de um passeio restar
à perseguição da luz
como um animal deslumbrando que atravessou.
BOCA DO INFERNO
Nada resistiu da fórmula relativa e literária do mar
desapaixonado a que acrescentamos dois a monte
disto diante como outros antes aqui conclusivamente
pusemos o romantismo por outras palavras para
coincidir nos formalismos profanos quem diria
vigiando o aplauso ordinário dos vivos
nos faltava ainda o último passe criminoso
o primeiro lugar de um concurso ganho
um relativo bruto de patas bem necessárias
e por condição na cara enfim
um desperdício de paisagem oprimindo.
FIGURAS DE ESTILO
Uma dureza fria uma noção de império eu
vestida miragem atravesso o mundo
para brinca aos camelos contigo
o meu fato diamante a minha espera de pedra
musa sanguínea de sentinela
hei-de escarrar-te uma página perfeita de literatura
vens para este livro vais ser crucificado aqui
há-de esmolar-se mesmo a vontade romeira
a mão justa na outra
a violência privando-me
o juízo este poema até
há-de amarelecer constante
e este diminutivo susto que vai sendo
uma festa acabará com beijos nos olhos
havemos de nos ligar nupcialmente num sismo
num dia ambulando o tempo próprio uma sílaba tu
chegas para te sentares à cabeceira da infância eu
levanto-me com a forma de ter cabido nesse precipício
não saberás quimicamente de um corpo
levantando à altura dos ombros
o teu ofício dita que és médico, cardiologista
tratas dos corações dos outros sabe-lhes o peso
e saber isso é uma coisa próxima de
nenhuma figura de estilo.
*Poemas do livro “Groto Sato”, Edições Macondo, 2021.