Tracy K. Smith nasceu em Falmouth, Estados Unidos, a 16 de abril de 1972. Poeta, tradutora, libretista e Educadora, de 2017 a 2019, foi nomeada como poeta laureada nos EUA. Venceu o Prêmio Pulitzer de Poesia pela obra Life on Mars (Vida em Marte), em 2011. Esteve no Brasil, em maio de 2025, participando do projeto de extensão “Literatura Inglesa Brasil”, vinculado ao Instituto de Letras (ILE) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
FICÇÃO CIENTÍFICA
Não haverá bordas, mas curvas.
Linha límpidas apontando apenas adiante.
A história, com a lombada rígida e páginas dobradas
nas pontas, será substituída pela nuance,
Assim como os dinossauros deram lugar
A montanhas e tumbas de gelo.
Mulheres ainda são mulheres, mas
As distinções serão vazias. O sexo,
Sobrevivendo a toda ameaçam, vai satisfazer
Apenas a mente, que é onde existirá.
Pelo barato, dançaremos só para nós
Diante de espelhos emoldurados com lâmpadas douradas.
A mais velha entre nós reconhecerá aquele brilho –
Mas a palavra sol terá ganhado outro sentido
De Sintetizador de Oxigênio Limpo, um aparelho
Popular nos lares e asilos.
E sim, viveremos muito mais, graças
Ao consenso popular. Sem peso, transtornados,
A éons de distância até da nossa lua, à deriva
Nas névoas do espaço, que serão, de uma vez
Por todas, decifráveis e seguras.
A VIDA BOA
Quando algumas pessoas falam em dinheiro
O mencionam como se fosse um amante misterioso
Que saiu para comprar leite e nunca
Voltou, e isso me dá nostalgia
Dos anos que vivi a base de pão e café,
Faminta o tempo todo, indo trabalhar a pé no dia do pagamento
Como uma mulher em busca de água
Saída de uma vila sem poço, então vivendo
Uma ou duas noites como todas as outras pessoas
Com frango assado e vinho tinto.
CHALLENGER
Ela se irrita tanto. Acho
Que ela gosta disso. Como um traço torcido, ou um fio
Enrolado em torno de si mesmo num poço.
E a pressão, a força bruta
Necessária para manter as coisas desse jeito, impedir
Que se endireitem, cabe a ela
Sustentar. Ela é feito uma chaleira prestes a explodir.
Todo aquele vapor ansioso por emergir a escapar.
Fico cansada de ver isso acontecer. Os olhos
Vívidos com a fúria de si mesma,
As palavras inchando no peito, e então
A voz se chocando contra o rosto de qualquer um.
Ela gosta de ouvir, sua garganta áspera
Com a bobagem e a história que deve
Ser contada várias vezes, não importa.
Lancei! Ela gosta de pensar, embora
O que venha à mente no momento
Seja mundano. Um vento regional. Frio e fraco.
NÃO É
Aquela morte pensava em você ou em mim
Ou em nossa família, ou na mulher
Que nosso pai abandonou quando morreu.
A morte estava pensando no que devia a ele:
Sua jornada além do corpo, seus trajes,
Além dos impostos que enxameavam a cada ano,
O carro e sua injeção eletrônica, as árvores frutíferas
Carregadas no jardim. A morte o conduziu além
Da seção de ferramentas, do freezer com carnes enfileiradas
Da televisão repetindo várias vezes Busquem
e Encontrarão. Então por que insistimos
Que ele desapareceu, que a morte escapou
Com tudo o que tínhamos de valioso? Por que ele não estaria
Somente nadando pela vida – seu lento
E gracioso nado livre, os ombros ondulando,
As pernas cortando as ondas, deslizando
Ainda mais longe naquilo que a vida em si nega?
Até onde sabemos, ele só foi longe demais. Embora
Quando tento, vejo a nuvem branca de seus cabelos
À distância como uma eternidade.
QUANDO SUA PEQUENA FORMA DESABOU EM MIM
Deitada espraiada na como um tapete de pele de animal:
De bruços, pernas abertas em forquilha. Era inverno.
Dia útil. Seu pai tamborilava os pés no chão.
As crianças do andar de cima arrastavam algo pra lá e pra cá
Sobre rodas rangentes. Eu estava vazia, esgotada
Por qualquer coisa que incha, rodopia e então quebra
Noite após noite naquele quarto. Você deve ter assistido
Ao que parecia uma eternidade, querendo ser
O que passávamos de mão em mão entre nós feito o fogo.
Querendo ter peso, desejando o desejo, morrendo
Para se deteriorar em carne, culpa, o breve êxtase do ser.
De qual sonho do mundo você se libertou contorcendo-se?
O que disparou – e o que se enlutou – quando você mirou sua vontade
Em direção ao sim do meu corpo vivo daquele jeito nos lençóis?
OVOS NORUEGUESES
Dê a um home um bastão e ele vai atirá-lo contra o sol
Para o cão dele correr e pegar enquanto cai. Ele apreciará
O estalo dos dentes irregulares, o ofegar áspero
Serrando ao entrar e sair pela boca escarpada, o chacoalhar
Das placas da coleira enquanto o cão galopa de volta. Ele se curvará
E fará isso várias vezes, então a caminhada pela grama
Dura a manhã inteira, o cachorro cansado agora no calor,
O bastão agora tão molhado e retorcido que não navega
Tanto quanto uma gota. E quando o cão cai na grama
Como um troço estúpido, e ainda que você não queira nada
Mais que um prato de ovos num café na calçada, o homem –
Que também, a essa altura, abandonou até a ideia de pegar –
Vai te empurrar contra uma árvore e acomodar a perna dele
Entre as suas enquanto a língua dele esforçada sussurra
Convicentemente dentro da sua boca.
*Poemas do livro “Vida em Marte”, Relicário Edições, 2025.
Tradução de Stephanie Borges.