Rodrigo de Haro nasceu em Paris, França, no dia 6 de maio de 1939. Poeta e artista multifacetado, era filho do pintor Martinho de Haro. Veio para o Brasil em 1939, passando a viver em Florianópolis, Santa Catarina. Foi membro da Academia Catarinense de Letra. Como poeta, sua obra é associada ao surrealismo e ao conjunto de poetas que surgiu no início da década de 1960 em São Paulo, como Roberto Piva e Claudio Willer. Morreu em 1 de julho de 2021, em Florianópolis.
Magistério
Quanto mais subires, maior
silêncio. A corneta petulante
não alcança estes páramos.
Nuvens como rochas e
último grito – Oh! Água,
gesta impenetrável!
Memórias ainda sangram,
outrora apetecidas. Consulto
apenas o sopro
de flautas quebradas.
Cantar é inútil
Nenhuma linguagem apta
a traduzir a rápida ária
do abraço imobilizador
que fátuo gozo arrasta
através do zodíaco
antes de imobilizar-se
– por fim – no centro da teia
onde cristalina aranha
– meu Deus! – devora
a si mesma…
Caleidoscópio
Giras o canulado instrumento,
caleidoscópio precioso que,
de ouro e metileno, especula
jogos infinitos com a luz
sem repetir
uma única estrela.
Natureza-morta
Ouve-se o zumbir da mosca
explicita na lâmina de nata
seca que arrefece
na borda da jarra
penumbrista.
Um pouco além está o peixe.
Prata e cinza. Com auxílio
da lupa, uma crucificação
se avista no seu olho
parado. Frio dolor…
Esvoaçando o inseto pousa
sobre o talo do cravo
embriagado, preso
no copo.
O silêncio invade a escrita
O silêncio invade a escrita,
toma por inteiro a paisagem
ominosa da caligrafia
como buril, ferindo
no metal, risca finas es-
trias e ilumina, com
ressoante algazarra,
a sisudez cativa da fantasia
principesca. O silêncio
invade a escrita e
o invisível molda-se na cera.
Na penumbra desta operação
abre-se calado dique
que tudo alaga.
Foto num vidro partido
Libera a imagem, procura
o esquecimento. Deixa partir
diante de teus olhos o barco
ansioso de naufrágios.
Libera esta imagem
pesarosas dos dias coloridas
capazes de queimar
tuas mãos. teus lábios
Libera as figuras favoritas.
Deixa elas partirem
rumo ao esquecimento.
Nada perguntes…
Dormir, dormir
como dorme
um não nascido.
*Poemas do livro “Folias do Ornitorrinco”, Editora UFSC, 2011.