Faustin von Wolffenbüttel, mais conhecido pelo pseudônimo Fausto Wolff, nasceu em Santo Ângelo, Rio Grande do Sul, no dia 8 de julho de 1940. Poeta, jornalista e ator, mudou-se para o Rio de Janeiro aos 18 anos. Foi colunista do Jornal do Brasil, na Tribuna da Imprensa e no Diário da Noite. Em 1968, perseguido pela censura militar, exilou-se na Europa, onde passou 10 anos, na Dinamarca e na Itália. Na volta ao Brasil, com a Anistia de 1979, trabalhou em jornais como O Globo e JB, mas em seguida passou a dedicar-se apenas à imprensa independente, principalmente no “O Pasquim”. Apoiou a candidatura de Leonel Brizola para o governo do estado do Rio de Janeiro em 1982 e, a partir dessa experiência, organizou o volume “Rio de Janeiro, um Retrato: a Cidade Contada por seus Habitantes” (1985), considerado um dos mais completos retratos sociológicos do município. A partir daí, dedicou-se à literatura, escrevendo livros de poemas e romances. Ganhou, em 1997, o Prêmio Jabuti, por seu romance “À Mão Esquerda” e, em 2008, foi finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. Fausto Wolff faleceu no dia 5 de setembro de 2008, no Rio de Janeiro.
ACONCHEGO
Não existo, e esta negativa
É prova de que persisto.
Não há como haver
O não havido.
Qualquer penitência,
Portanto, é batida sincopada
De dentro da terra
Para a superfície,
Que não existe.
HARMONIA MELHORADA
Os peixes não sofrem.
Os pássaros também não.
Não sofrem os cetáceos,
Os mamíferos, os répteis,
Nem os crustáceos do Ceilão.
Agora – bem distinto o arrebol –
Matemos o inventor
Do arco e da flecha, do revólver,
Da bomba e do anzol.
QUINTO COPO DE CANINHA
A razão da literatura
É ser mais forte do que a realidade
Que tenta sufocá-la.
Quando a pedra fere o vento,
Vive sua glória religiosa,
Vive sua pretensão imaginosa,
Vive sua nã0-tarefa,
Sua potencialidade total.
Em seguida cai no chão como pedra.
O imenso vento continua ventando,
Mas na imaginação da pedra
Jamais será o mesmo.
VAN GOGH CHORANDO PRO SOL
Essas lembranças todas,
Com as quais vou matando
A minha vida,
Nada têm a ver comigo.
São os girassóis coincidentes,
Os coelhos surpreendentes,
Os dias distraídos
Sempre absorvidos
Pela noite calma.
Colina escura e protestante,
Crianças açoitadas
E velhos com medo
Das próprias mãos.
DESMEMÓRIA
Trouxe da ilha informações
Para sua sobrevivência fora dela – ilha.
Mas imenso com seu jeito
De cordilheira infinitesimal,
Trouxe com ele alguns lampejos
De felicidade e quase bem-estar.
Como, porém, as ilustrações
Eram ele,
Acabou morrendo enquanto tentava
Nadar de volta para a ilha.
DEMISSÃO EM CARÁTER IRREVOGÁVEL
Receio não poder aceitar
A ignorância pré-arranjada
Para me amalgamar
Com vegetais, minerais, animais
E alguns objetos pessoais.
De modo que, horrendo Senhor,
Dispense-me do louvor.
Devolvo-lhe a suportável dor.
Nada peço em troca,
Nem o dentista e a sua broca.
Devolvo-lhe o sexo
E o prazer anexo.
Caso não exista,
Aceito suas desculpas,
Mas não quero, não pedi, não exijo.
Espero que alguém esconda
As minhas palavras
Dentro de um grão de areia
No fundo do deserto que permeia
O erótico gesto da inútil sereia.
DESCOBERTA TRIVIAL
Aqui, neste ponto sem cor,
Começamos.
Mais adiante, viajando
À essência da dor,
Recomeçamos.
Exaustos do infinito
E do torpor,
Nos perguntamos:
“Quem é você, bode negro,
Que bate sem cessar na parede
Minha?”
Não há resposta
Nem para a curva,
Nem para a linha.
Tudo é fingimento.
Todo esse espaço,
Toda essa matéria,
Todo esse terror,
Não passam de breve
Pausa
De um momento.
*Poemas do livro “Gaiteiro Velho”, Editora Bertrand Brasil, 2023.