Suzana Kfuri de Vargas nasceu em Alegrete, Rio Grande do Sul, em 28 de fevereiro de 1955. Poeta, escritora, ensaísta e professora de literatura, é Mestre em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com especialização na área de leitura. Ao longo de sua trajetória, percorre o país ministrando oficinas voltadas para professores e agentes de leitura.
Há mais de duas décadas, dedica-se à curadoria de projetos literários de grande relevância em feiras e eventos nacionais e internacionais, entre eles as Bienais do Livro do Amazonas, Rio de Janeiro e São Paulo, a Primavera dos Livros, a Campanha Paixão de Ler e os Encontros com a Literatura Latino-Americana do Centro Cultural Banco do Brasil. Também atua como curadora do projeto Estação Pensamento & Arte, da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro.
Fundadora e coordenadora da Estação das Letras, espaço pioneiro e único no país dedicado às oficinas de criação literária, Suzana foi nomeada em 2012 Coordenadora Nacional do Projeto Caravanas de Escritores, iniciativa do Ministério da Cultura e da Fundação Biblioteca Nacional.
Autora de 16 livros, entre eles Caderno de Outono — indicado ao Prêmio Jabuti — e o ensaio Leitura: uma aprendizagem de prazer, tem sua obra poética traduzida em países como Itália, Estados Unidos, Espanha, Alemanha e França.
EU, MEU NOME
Talvez tenha encontrado
a poesia do nome
Sou um cristal,
uma pedra a flutuar no abismo
Ela
é o exato momento
. suspenso
antes da queda
LIBÉLULA-MÓVEL
As meninas dançando
Parece que estão dormindo?
Ou as meninas dormindo
Parece que estão dançando?
Capta este momento
em que uma lança,
atravessa seus dedos
e teus olhos
Ambas em posição de estátua –
móvel
. pela dança,
E pela guerra que se esconde
. em célula
Também as palavras
. são libélulas.
ABISMOS
Tudo o que já dissemos
sobre o amor,
não supre a expectativa da
paixão.
A paixão é adaga afiada
que se crava fundo, fundo
Nela o amor dança
e dorme, sonha tudo.
Não tem meias medidas a
paixão.
Ou voamos, viramos pelo
avesso
Ou o que nos espera é o
precipício,
E isso – é apenas o início.
MONUMENTO ÀS FONTES
Suspensa
Pássaro a engolir uma serpente,
eriges teus sinais em bronze vivo.
Sereias, sacerdotes,
há alguma tempo
o mundo te contempla.
Mija ou não,
na cabeça de teus anjos.
Mescla de esperma e de gelo,
me espreitas sempre que eu quiser
te olhar.
O teu único crime
é perpetuar a flecha,
cravada em antigo coração.
E tua história
escrita em cada um
com um punhal
Juntará o que rasteja
ao que voa
CONFISSÃO
Odiei minha mãe a vida inteira.
E ela percebia isso,
Ah, se percebia,
(Olhos atentos
ao desapego da filha,
buscaram sempre outros sóis,
outras paragens,
voz de comando evitavam)
Eu
bem contrária à brandura preservada
quebrava copos,
repetia quase sempre
o ano nas escolas,
Se pudesse,
meu braço, descuidava no encontrão
Sonhava crimes terríveis
e entre facas,
uma vez o assassinato aconteceu.
Ela, que percebia minha ira,
não vai entender os versos
que lhe escrevo agora –
a raiva duplicada –
Porque o ódio
se aproxima e muito
da paixão:
Agredi-la no crepúsculo
ou na aurora
ainda é meu único modo
. de tocá-la.
UM SONHO, UMA ONÇA
O sonho vela o escuro e é real
E o real é essa onça é esse sol
É mais real que as grades, que a comida
Do carcereiro, é mais real que a vida.
Com a sua avidez adormecida
A onça sonha, mas não sonha e vão
Em vão vai quem se prende à realidade
E imagina ser livre sem as grades.
Na verdade uma paixão nos prende a tudo
E mesmo cegos surdos mudos continuamos.
Mas pensemos na onça em sua cela
no seu sono velado à luz do dia
Que a obriga a dormir com seus limites:
o cheiro, a cor, ruídos rutilantes
. (instintos e capim e terra e ar)
Por que imaginaríamos diferente
Se o limite da onça é sonhar?
*Poemas retirados do livro “41 Poetas do Rio”, FUNARTE, 1998.