Nuno Ramos nasceu em São Paulo (SP), em 1960. Poeta, compositor, dramaturgo, escritor, ensaísta e artista plástico, desde a década de 1990 trabalha com a sobreposição tensa entre materiais heterogêneos e um plano de elaboração conceitual, caracterizado pela proximidade com as artes verbais. Tais relações podem se dar na fricção entre camadas grossas de tinta e parafina, ou entre vidro e palavra, em trabalhos que sublinham a dimensão física de processos semânticos. Seus projetos recentes marcam o desenvolvimento de uma linguagem dramatúrgica, com peças, performances e instalações que encenam aspectos da experiência coletiva contemporânea, ligando soluções espaciais à contestação discursiva de assuntos políticos prementes.
31. Poética
Já ouvi isso antes
um pio gigante, de pura desilusão.
Passo reto, sem olhar pra cima.
Ignoro a cópula entre a coruja e o corvo
o pio longo e feroz, no topo.
Volto pra casa.
Nenhum hino de adeus à floresta.
O mundo lá fora é um sucesso completo.
Deixei um sapato, algumas roupas
uma tradução portuguesa do Paraíso perdido
atrás do arbusto de orquídeas e cíclames.
Afundaram quando o gelo quebrou
e raposas fundiram-se à ferrugem das folhas.
Por que tive filhos, compus canções?
Meu peso sobre a terra não deveria marcá-la.
Será recebido por ela, severa e granulosa.
Não o indizível, mas o impensável
uma vida sem livros, filhos, diários
retalhos formando figuras:
um zumbido de inseto
um poeta soprando
seus versos à barba
de chinelo e pijamas.
Tudo o que ecoa
sino sino sino
vem dos animais
plantas
escondem seu nome
no leite do caule
dos próprios estames
depois no caderno
que trago comigo.
(Longa pausa)
Não faço poemas, faço desenhos
com os dentes, mordendo o papel.
A arcada dentária é minha caneta.
***
Isso de haver um poeta
dentro de mim
não é bem verdade.
Por vaso-capilaridade
o sumo transfere-se
à outra metade, só isso.
A sombra das palavras
marca minha posição exata
e o mundo meio que para
compensação sonora
por anos de música alta.
Volto à floresta, palavras
ganharam textura, sabor.
Devo plantá-las antes que morram
mas como chamá-las?
Dariam nome aos outros
como descobrir o seu?
Deixei que tomassem conta de tudo
estufa, herbário, caderno
agora o cabelo, as juntas de sebo
a fome e a asma cresceram
e pedem seu leite mais!
***
De que fala este poema?
Essa é a pergunta, Nuno.
Não adianta responder enquanto escreve.
Devia ter pensado nisso antes.
Já sei: escrevo pra me livrar da neve
em Köenigsalle, e das palavras que prometem
mas nunca crescem.
Dos homens de gás hilário
polidos como um espelho
mas fascistas, estetas.
Fuja dessa gente como de um cachorro louco.
Têm rabo de cavalo e levantam ferros.
Fuja do mendigo romeno e das raposas vermelhas.
Palavras demais foram ditas, descanso de menos.
Até eu virei poeta.
Os músculos daquele menino
que escolheu o seu hibisco
ao lado do namorado, algumas páginas atrás
sua glande e seu esperma roçando a si mesmos
num princípio de prazer quase eterno
ficaram moles, velhos.
***
Palavras viajam à velocidade da luz.
Ninguém sabe onde fica a página.
Exaustas, não conseguem pousar.
***
Não se plantam árvores, Nuno
plantam-se repolhos.
As folhas da relva nunca se deixaram ler.
Em algum ponto me confundi
o to be a dragon.
Escamas de trigo e de merda
gritavam mantras nos sonhos que tive.
Estão vivas?., as pessoas perguntavam.
Sim, e douradas
e albinas, eu respondia. São lindas.
Voam, flutuam? Sim. Leem? Sim. Falam sozinhas?
Não, mas cantam o que elas mesmas compõem.
Pedi uma selfie comigo.
Pedi que nunca contassem
aos outros quando envelheceriam.
19.
Respiro sozinho
triste e perdido
no meio do arco
triunfal da avenida.
Cranach, gente ranzinza
prédios, luz cinza
apagam meu luto.
Outra vida te espera
essa mesma, me dizem.
Cedros, carvalhos rugosos
escondem países
inteiros de insetos.
Você nem devia estar aqui.
Certo. Não mesmo.
Cansei das manhãs
azuis e brilhantes
que a chuva da tarde
não lava ou refresca
– bombeia (são bombas)
um mar de sargaços
na sala dos pobres.
Cansei do presente
do indicativo, da ovelha mugindo
é, ééé, e da milícia íntima
cobrando um imposto
impossível de símbolos
poemas, canções.
Não sei mais compor
não sei mais pintar
não sei mais filmar
meus ossos.
Não sei o que é branco
preto, alto, feio
e quando leio, desconcentro.
Na cera do ouvido
naufrágios antigos
ainda grudados
emitem juízo.
42.
Uma coluna de ar entrou por meu cocuruto.
Senti seu êmbolo.
Palavras ficaram moles, os pensamentos ridículos.
Só duram segundos.
Não posso plantar palavras no Jardim Botânico, esperar que cresçam.
Não tenho mais tempo.
Amigos perguntam por mim diante de mim.
Na transparência floresça.
*Poemas do livro “Jardim Botânico”, Editora Todavia, 2023.