Harold Pinter nasceu em Hackney, Londres, a 10 de outubro de 1930. Poeta, ator, diretor e roteirista, foi um dos mais importantes e influentes dramaturgos do século XX.  Reconhecido também por sua postura crítica como ativista político, destacou-se como uma voz incômoda e necessária na cena britânica. Figura central do teatro do absurdo, ao lado de Samuel Beckett e Eugène Ionesco, Pinter recebeu em 2005 o Prêmio Nobel de Literatura e foi agraciado pela Rainha da Inglaterra com o título de Companion of Honour, em reconhecimento aos serviços prestados à literatura. Faleceu no dia  24 de dezembro de 200, aos 78 anos, em Londres.

Poema

Não olhes,
O mundo está prestes a rebentar.

Não olhes.
O mundo está prestes a despejar a sua luz
E a lançar-nos no abismo das suas trevas,
Aquele lugar negro, gordo e sem ar
Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar
Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos
A ver se conseguimos de novo um posto de partida.

Está Aqui
(para A)

Que som foi este?
Afasto-me para o quarto que estremece.

Que som foi este que veio no escuro?
Que labirinto de luz é este em que nos deixa?
Que atitude é esta que tomamos
Para nos afastarmos e depois voltarmos?
Que foi que ouvimos?

Foi a respiração suspensa de quando nos encontramos.

Ouve. Está aqui.

Deus

Deus olhou para dentro do seu secreto coração
Em busca de uma palavra
Pra abençoar a multidão dos vivos cá em baixo.

Mas por mais que olhasse como pode
E suplicando aos fantasmas para viverem de novo
Mas sem ouvir nenhuma canção naquele quarto
Descobriu com dor ardente
Que não tinha bênçãos para dar.

Fantasma

Senti dedos suaves na garganta
Parecia que alguém me estrangulava

Lábios tão duros quanto doces
Parece que alguém me beijava

Os meus ossos vitais quase a quebrar-se
Pasmei para dentro dos olhos de outrem

Vi que era uma cara conhecida
Cara tão doce quanto sinistra

Não sorria não chorava
Olhos aberto e branca a sua pele

Eu não sorri não chorei
Levantei a mão e toquei-lhe a face

Mais Tarde

Mais tarde. Contemplo a lua.
Vivi aqui antigamente.
Lembro-me da cantiga.

Mais tarde. Nenhum barulho aqui.
A lua no linóleo.
Uma criança franzindo o sobrolho.

Mais tarde. Uma voz cantando.
Abro a porta das traseiras.
Vivi aqui antigamente.

Mais tarde. Abro a porta das traseiras.
Não há luz. Árvores mortas.
Linóleo morto. Mais tarde.

Mais tarde. O negrume avança depressa.
Negrume gordamente.
Vivo agora aqui.

O Delito do Susto

.      UMA MULHER FALA:
Uma pulsação no escuro
Não pude parar.
Um erro do susto
Não pude afastar.
Uma testemunha no caso
Não pude chamar.

Se a substância se estende
Eu sou a perda do seu sangue.
Se as minhas coxas o aprovarem
Sou a soma do seu medo.

Se os meus olhos o louvam
É o caso que está arrumado.
Se a minha boca o acalma
Sou a noiva certa para ele.

Se as minhas mãos o afastam
Está surdo ao meu gesto.
Se confesso o meu prazer
O caso está descoberto.

O delito do susto
Não o partilha.
Morro de acordo com o ritual
E ele é o meu caixão.

Luz do Dia

Atirei um punhado de pétalas sobre os teus seios.
Arranhada pela luz do dia, jazes petalisada.
Assim a tua pele imita o rubor, a cabeça
Roda em todos os sentidos, exibindo um massacre de flores.

Eu levo-te então das trevas até ao dia,
E pouso pétala sobre pétala.

*Poemas do livro “Guerra”, Edições Quasi, 2003.
Traduções de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão