Márcio Catunda nasceu em Fortaleza, Ceará, a 22 de maio de 1957. Poeta, escritor e diplomata, é membro da Associação Nacional de Escritores (Brasília-DF), do Pen Clube do Brasil (Rio de Janeiro), da Academia de Letras do Brasil (Brasília-DF), da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (sócio correspondente), da União Brasileira de Escritores (UBE-Rio de Janeiro) e da Associação Profissional de Poetas do Rio de Janeiro (APPERJ). Foi Presidente do Clube dos Poetas Cearenses em 1975 e fundador do Grupo Siriará em 1981, ambos em Fortaleza. Participou das reuniões do denominado “Sabadoyle”, de 1982 a 1985, no Rio de Janeiro, onde conheceu Carlos Drummond de Andrade, com quem manteve intercâmbio.
APELO
Lembrem-se de que o poeta tem um pênis.
Lembrem-se de que o pênis do poeta
carece de sua natural utilização.
Lembrem-se de que o pênis do poeta
é menos tímido do que o próprio poeta.
Lembrem-se de que o poeta tem um pênis
com a forma de caneta.
Dê de presente um pênis de poeta neste Natal.
“Ainda estou aqui”, disse o pênis do poeta!
BALADA DOS INSATISFEITOS
O micróbio que ser macrobiótico.
O microcosmo quer ser microscópico.
O McDonald’s quer ser McCartney.
O mictório quer ser Mick Jagger.
O macabro quer ser macambúzio,
e ninguém está satisfeito.
A Parca finge ser traça.
O mudo quer mudar o mundo.
O hétero quer éter de Eros.
O antropólogo quer logo o antro do polo.
Os nervos já não querem ser servos.
E ninguém está satisfeito.
Quem sobe quer descer.
Quem desce quer subir.
Quem corre quer divagar.
Quem vaga quer discorrer.
Foge quem quer se encontrar.
A fome se disfarça de apetite.
A essência se veste de aparência.
Quem se alegra logo pena.
Quem tudo quer não tem nada.
E ninguém está satisfeito.
Neste mundo de convencidos vencidos,
como pode estar satisfeito o poeta,
criatura que dialoga, o tempo todo,
com Deus e os demônios?
SOBRE AS GUERRAS
Perguntam-me de novo sobre as guerras.
Digo que é coisa de gente rancorosa,
que tem a pretensão
de montar um jumento do comando
e possuir a verdade.
Gente ranzinza,
cheia de complexo de inferioridade,
que valoriza mais a grana
do que a amizade,
Gente antissocial.
Baixo-astral.
A mais triste
condição de um ser humano é a de homicida.
Toda guerra é uma guerra de merda.
E, o pior,
é que não conseguimos dar descarga.
Das guerras, pouco digo:
Viva o desertor!
A TIRANIA DA TRIPA
Costumava meu cérebro mandar
nos antros do corpóreo labirinto.
Têm hoje os intestinos o lugar
da primazia entre a razão e o instinto.
A senectude: deglutir e obrar,
eis como vivo em meu reles recinto.
A tripa é soberana em seu altar
e ordena um consumir demais sucinto.
Num controle das gulas, jamais visto
por parte das papilas comensais,
a víscera, como um tirano audaz,
um pacto com o Tempo trismegisto
por certo celebrou e, pelo visto,
fez dele seu devoto capataz.
REDUTOS
. A Cairo Trindade (In memoriam)
O dentro disse ao fora: – Entra!
O fora disse ao dentro: – Saí!
E cada um, irresoluto,
restou no seu
irredutível
reduto.
*Poemas do livro “Flores do Deserto”, Ventura Editora, 2025.