Rosa Alice Branco nasceu em Aveiro, Portugal, em 1950. Poeta, tradutora, investigadora e promotora cultural, dedica-se profissionalmente à Neuropsicologia da Percepção e à Estética. Também foi coeditora de revistas de filosofia e poesia. Autora de dezenas de livros, em dezembro de 2016, a sua obra O Gado do Senhor (Cattle of the Lord em inglês), foi selecionada como um dos “10 Melhores Novos Livros para Ler em Dezembro» pela conceituada The Chicago Review of Books. Este livro traduzido por Alexis Levitin e publicado nos Estados Unidos pela Milkweed Editions.


LINHAS INVISÍVEIS

Aproxima o olhar.
Vê como hesito
como raiva se lê na mão que escreve
quando volta atrás e despedaça a linha
feita de palavras que fingem morrer
e reaparecem inteiras no nosso sono
como o bolor do pão
ou o musgo da pedra
crescem na humidade invisível do que nos sustenta.

Acordada a mão sorri
as suas linhas
(a do coração, a da cabeça)
fundem-se com as linhas gravadas no papel:
é aí a sua casa
aqui o coração da manhã.

O UNIVERSO DA POESIA

Quando o poema surge inesperadamente
e a mão rodopia como uma tempestade de folhas
ou se acalma no papel,
quando o poema é como se nada estivesse escrito
e nada existia
senão o universo inseparável e inteiro
de que não é possível dizer uma linha
que ninguém se lembra de escrever
absorto a ser o que o universo desde sempre é,
nesse agora instante
em que o tempo está inscrito
o espaço, o tempo e o poema desaparecem
na presença absoluta da poesia.

A MULHER ILUSTRADA

O inverno traz manhãs baças pelo vidro
e o frio vai-me desenhando na pele tatuagens
que resistem à superfície antes de se afundarem
na parede dos ossos. Desenham-me o riso na pele fina
das crianças, as olheiras por cima da noite em claro,
as rugas vincando o teu rosto como um mapa do metro,
as varizes desenhando nas pernas o que te ia nos braços.

O homem do quiosque sorri pelo vidro, o cheiro do café
atravessa a rua como bálsamo sobre o corpo em chamas
nesta manhã de inverno. As tatuagens desenham-me a pele
enquanto nos tocamos sob o aroma do café.
É fácil perdê-las, a pele não guarda vestígios,
mas abre-se para dentro e deixa nos ossos um visco
espesso, um vômito coberto pela maquilhagem.

O SEGREDO DA MATÉRIA

Subo ao sótão e tenho seis anos
pelas escadas que rangem
sob os pés que voam em segredo,
rangem como a porta a abrir
para a luz filtrada dos pavores da infância
onde espero um pouco
por tudo o que me espera desde a eternidade.
Tenho sete anos e a cinza confunde-se com a luz
depositada no tempo. As arcas dão a ver o outro lado
do mundo espalhado pelo chão à minha volta.
Não são objetos mas o próprio mistério da existência
que vai passando pelas minhas mãos
quando tenho oito anos, quando tenho agora
o segredo de uma porta que abre para a casa.
Percorro os caminhos da mesa, da cama, da lareira,
as raízes da casa são o sótão
onde a luz toca nas mãos o infinito.
Subo pelos olhos espantados
e espero ainda a aurora que me aguarda
aproximando-se lentamente do seu pó.

A ARTE DAS DÚVIDAS

Também eu tenho medo
da porta que se abre para deixar entrar
o medo,
da janela que o fecha cá dentro.
À noite ouço-o a andar às voltas
a forçar as grades,
a escavar um túnel de insônias
com o tempo de que é feita
a arte do tempo
e as mãos sujas da eternidade.
À noite as dúvidas cercam-me
cheias de certezas
e sinto instalar-se o terror,
o silêncio ofegante que ronda a garganta
apertando o ar
contra as paredes da respiração.

ILUSIONISMO

Não sei o que te diga. E se soubesse
a quem diria? Visto-me com o colar que deixaste
para este dia, um vestido claro para afugentar
a noite. As horas que ficam no fundo
e arrasam a gaveta. O peso incontável
de terem partido os dias da semana
iguais a si, iguais a ti e a mim.
Ficou um segundo esquecido na gaveta.
É com ele que farei o dia e todos os dias
que faltam para que não me faltes.

MENOS RAZÕES QUE AVES: IRAQUE

A rota das aves. Essas manhãs em que
levantava a cabeça e elas passavam
rente à infância. Passeavam
no céu como eu passeava cá em baixo. Sem rua
e passeios apinhados na respiração por um segredo
dentro do ouvido. Um tremor, quase a consciência
de ter corpo. Em bando, mais gente que segredos.
Talvez seja por isso que pousam nos telhados vazios.
É o caminho que as escolhe.
Há mais coisas a dizer entre o quê e o quem.
Por exemplo, as aves têm rotas que a guerra desconhece.
Previsível colisão com aviões
este ano (pensa ela),
este país em sangue
no bico das aves.
Elas passavam. Ficam os comboios, os apeadeiros,
o borbulhar de passos que se afastam das aves.
Era o corpo que exigia outros mapas, linhas
sinuosas ou beijos. As manhãs agora fazem perguntas,
por exemplo, quem escolhe uma morte para seguir a rota dos outros.
Sempre uma pergunta sobre o lucro.
Conclui-se que há menos razões que aves
nos telhados solitários. Há menos, mas mais sangue.

*Poemas do livro “Mapa dos amores incompletos”, Assírio & Alvim.