Lino de Pinto Guedes, conhecido pelo pseudônimo “Laly”, nasceu em Socorro, São Paulo, em 24 de junho de 1897. Poeta e jornalista, destacou-se como um dos mais importantes escritores negros brasileiros do século XX. Entre as décadas de 1920 e 1950, atuou intensamente em movimentos sociais e na imprensa negra paulista, além de militar em associações e grêmios voltados à causa negra.
Inspirado pela obra de Luís Gama, fundou em 1923 o jornal Getulino — nome que remetia ao apelido do poeta — em parceria com Benedito Florêncio e Gervásio de Morais. Três anos depois, em 1926, encerrou as atividades do periódico e mudou-se para São Paulo, onde passou a integrar o Centro Cívico Palmares e colaborou com Argentino Celso Wanderley na criação do jornal Progresso, igualmente dedicado à valorização da comunidade negra.
Como poeta, sua produção literária foi marcada pela influência do romantismo abolicionista de Castro Alves e Vicente de Carvalho, explorando formas populares como a redondilha e o cordel. Alternava entre poemas de amor e versos que refletiam os conflitos, aspirações e experiências da população negra paulista no período pós-abolição. Sua obra tornou-se referência para compreender as masculinidades negras e os embates sociais entre homens negros e brancos, atravessados por questões de gênero, raça, classe, religião e nacionalidade.
Lino Guedes faleceu em São Paulo, no dia 4 de março de 1951.
Novo Rumo
Negro preto da cor da noite,
Nunca te esqueças do açoite
Que cruciou tua raça.
Em nome dela somente
Faze com que nossa gente
Um dia gente se faça!
Negro preto, negro preto,
Sê tu um homem direito
Como um cordel posto a prumo!
É só do teu proceder
Que, por certo, há de nascer
A estrela de um novo rumo!
Para não Pedir Esmola
Abrindo todas as pennas
Das suas azas serenas
Sobre o negro soffredor,
A liberdade esperada
Foi assim como uma fada
Que allívio lhe deu á dôr.
Canção da Dôr
A mãe não pôde conter
um soluço dolorido,
quando lhe foram dizer
com o coração a bater:
– “O seu filho está vendido!”
O Sorriso de Pae João
O sorriso de Pae João,
Sahido do coração,
Onde viveu recalcado,
Fielmente reproduz
Quanto lhe pesa essa cruz
sobre os hombros desgraçados.
Negrinha
Li um conto de Lobato
Que muito me entristeceu…
Negrinha, remanescente
Da era triste em que viveu
A pátria amada, que nunca
Um carinho mereceu
Via com notada inveja,
A criançada que brincava,
E se lhe dava por troça
Um boneco, o segurava
Com certo medo, e com o espanto
Nos grandes olhos o olhava.
Esse conto tem um pouco
Do viver desventuroso
Meu. Deus é pai, porém, quando
Num abraço afetuso
Prendo a Dictinha, duvido,
Que seja tão generoso!…
Dedicatória
Oh, negrada, destorcida!
Que não quer não, outra vida
Melhor que esta de chalaça,
por entre fumo e cachaça;
Prá você, negrada boa,
que chamam de gente à toa,
Alinhavei tudo isto.
este livrinho – um entulho
à sua malemolência,
o qual falará da dor
desta infeliz gente negra,
gente daqui da pontinha,
desgraçada gente minha,
A gente do meu amor!
De Filho de Ex-Escravo à “Elite de Cor”
Penso que talvez ignores,
Singela e meiga Dictinha,
Que desta localidade
És a mais bela pretinha
Se não fosse profanar-te
Chamar-te-ia… francesinha!
Então, quando vaes à reza
Com o teu vestido de cassa,
Não há mesmo quem não fale,
Orgulho da minha raça:
– Olha que preta bonita,
E que andar cheio de graça!…
Se às vezes sorrio, à esmo,
Não me tomes por caduco.
Com teu vulto nos meus olhos,
Ando como aquele turco
Que, doloroso destino,
Ao te ver ficou maluco…
Ah! Se souberas, Dictinha,
Que por sob essa aparente
Frieza, (quem tal diria!…)
Eu peço constantemente,
A Deus que um dia nos ponha
Numa casinha sem gente…
Sem Algemas?
Dictinha, escute uma história
Muito nossa: antigamente
Não faz muito tempo ainda,
Foi escrava a negra gente;
Os mais pesados castigos
Lhe deram impunemente.
Mas um dia a realeza
De nossa sorte condoída,
Cujo crime consistia
Em ter pele enegrecida,
A liberdade nos deu;
Belo gesto, não, querida?
O que depois ocorrera,
É de ontem, por que falar?
Mas, eu ainda, Dictinha,
Preciso me libertar
Do penoso cativeiro,
Em que me trás seu olhar.
*Poemas do livro “Estrela do Novo Rumo: Antologia Poética de Lino Guedes”, Editora Sardinhas, 2024.