Hortensius-Emile Charles Cros nasceu em Fabrezan, França, no dia 1 de outubro de 1842. Poeta e inventor, inventou a fotografia em cores, o cronometro e também foi um do inventores do fonógrafo. Poeta de origem parnasiana, ficou mais conhecido como simbolista, e, segundo Andre Breton, sua obra também pode ser caracterizada como “a paternidade do surrealismo”. Faleceu em 9 de agosto de 1888, em Paris, na completa pobreza.  


O ARENQUE DEFUMADO

Era uma grande parede branca – nua, nua, nua,
Diante da parede um escada – alta, alta, alta,
E, no chão, um arenque defumado – seco, seco, seco.

Ele vem trazendo com as mãos – sujas, sujas, sujas,
Martelo pesado, um grande prego – pontudo, pontudo, pontudo,
Um novelo de barbante – grosso, grosso, grosso.

Então ele sobe pela escada – alta, alta, alta,
E finca no prego o barbante – longo, longo, longo,
E, na ponta, o arenque defumado – seco, seco, seco.

Ele desde de novo da escada – alta, alta, alta,
Leva-a com o martelo – pesado, pesado, pesado;
E depois se vai – longe, longe, longe.

E então o arenque defumado – seco, seco, seco,
Na ponta desse barbante – longo, longo, longo,
Lentamente se balança – sempre, sempre, sempre.

Eu escrevi esta história – simples, simples, simples,
A fim de enfurecer as pessoas – sérias, sérias, sérias,
E divertir as crianças – leves, leves, leves.

SONETO

Eu penso que Mantegna a ti fez na pintura
Perfeita em relva rara em em árvores afins,
Por um mar azul, onde, dóceis, os delfins
Escoltam naus com mastros em mínima altura.

Tu transportas, em rubra argola de clausura,
O amor; alheia a prantos veros ou ruins
Tu sonhas com desígnios, ignorando os fins,
Com teus cabelos de ouro em vaga de aventura.

Ou, divindade vinda com os reis normandos,
Eras tu que tornavas dormentes e brandos,
Com as tuas canções, os refluxos do Sena.

Livre de velhas telas e velhos romances,
Assim tua beleza assombra-me só em cena
No mundo destes dias, pobre em lindos lances.

DISTRAIDORA

.          O aposento está cheio de perfumes. Sobre a mesa baixa, dentro dos
cestos, tem resedá, jasmim e todas espécies de pequenas flores vermelhas,
amarelas e azuis.

.          Emigrantes louras do país de longos crepúsculos, do país dos sonhos,
as visões desembarcam em minha fantasia. Elas correm, gritam e tanto
se apertam, que gostaria de mandá-las embora.

.          Pego folhas de papel bem branco e bem liso e penas da cor de âmbar,
que deslizam sobre o papel com alaridos de andorinhas. Quero dar, às
visões inquietas, o resguardo do ritmo e da rima.

.          Mas, eis que sobre o papel branco e liso, onde deslizava minha pena
a chilrear como andorinha sobre um lago, caem flores de resedá, de
jasmim e outras pequenas flores vermelhas, amarelas e azuis.

.          Era Ela, a quem eu não havia visto e que sacudia as ramagens dos
cestos sobre a mesa baixa.

.          Mas, as visões sempre me agitavam e desejavam retornar. Então,
esquecendo que Ela ali estava, bela e branca, soprei sobre as pequenas
flores espalhadas no papel e voltei a correr atrás das visões, que, sob
seus mantos de viajantes, têm asas traiçoeiras.

.          Ia aprisionar uma delas – jovem selvagem de olhar verde – dentro
de uma estreita estrofe,

.         Quando Ela veio aprumar-se sobre a mesa baixa, a meu lado, de
modo que seus seus seios excitantes acariciassem o papel liso.

.         Faltava juntar o último verso da estrofe. Foi assim que Ela me impediu
e a visão do olhar verde desvaneceu-se, deixando apenas na estrofe
aberta o seu manto de viajante e um pouco do nácar de suas asas.

.          Oh! a distraidora!… Ia dar-lhe o beijo que esperava, quando as visões
agitantes, as adoráveis emigrantes de aromas longínquos, refizeram suas
danças em minha fantasia.

.          Daí, ainda esqueci que Ela ali estava, branca e nua. Eu quis encerrar
a estreita estrofe com o último verso, cadeia indestrutível de aço ideal,
nigelada de ouro estelar, que incrustava os esplendores de poentes
cristalizados em minha memória.

.          E afastei um pouco da mão seios inflados de desejos excitantes que
encobriam sobre o papel liso o local do último verso. Minha pena
retomou seu vôo, chilreando como a andorinha que vai rente a um lago
calmo antes da tormenta.

.         Mas eis que Ela está estendida, bela, branca e nua, sobre a mesa
baixa, sob os cestos, ocultando sob seu belo corpo elanguescido a folha
inteira de papel liso.

.          Então, todas as visões se evolaram, bem distantes, para jamais retornar.

.          Meus olhos, meus lábios e minhas mãos perderam-se na sarça aromática
de sua nuca, sob o aperto pertinaz de seus braços e sobre seus seios
inflados de desejos.

.          E nada mais vi senão esse belo corpo enlanguescido, tépido, branco e
liso, onde caíam os cestos agitados, ou resedás, os jasmins e outras
pequenas flores vermelhas, amarelas e azuis.

*Poemas do livro “Poetas Franceses do Século XIX”, Editora Nova Fronteira, 1991.
Tradução de José Lino Grünewald