Maria Emanuelle Cardoso Osório nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em 15 de novembro de 2000. Poeta, etnoecóloga, mestra e doutorando em Biodiversidade, atua como educadora popular e ativista socioambiental. É autora de “amarelo mostarda” (Editora Nauta, 2024), obra semifinalista do Prêmio Loba 2025; “Pugilismo, segundo Lauren L.” Selo Capitolinas, 2026); “Flor na Mulera” (Editora Sertão Pasárgada, no prelo) e “Foram os peixes a inaugurar a linguagem” (Macabéa Edições, 2026, no prelo), obra que inspirou o documentário poético homônimo e integrou a programação da feira literária europeia Versopolis Review. Publicou ainda a plaquete “o rio cerceado” (Umbuzerina) em 2026. Integra os coletivos Neomarginais e Escreviventes, além da equipe de poetas da FaziaPoesia.
Felis catus não fênix cactos
escrever um poema é como
acariciar um gato arredio
se à sua porta
ele decide:
penetrar em silêncio
com sede
ou à contínuo
e primitivo uivo
importante é que veja-me:
isso não é
defaunação intratoráxica
é melhor que queria
subirei a sua janela
com unhas anciãs recém-paridas
destruirei suas redes de proteção
passarei horas em sua barriga
fazem-me cócegas suas cãibras
lombrigas/gases/preocupações
fique completamente quieta
tudo que peço é acaricie minha testa
novamente
novamente
ficarei de canto,
esqueça-me
miarei com fome:
me olhe.
se fico de canto
um susto
batidas em sua porta
bato a sua porta
lembre-se:
eu preciso entrar
vou te deixar
com marcas
dos meus dentes
em sua canela
toda vez que passar por mim
arquearei as costas
para que dê um pulo
humana minha
tenho todas as vidas
mas rápido posso morrer
se você não souber
onde colocar o raticida
maracujá mentolado
o canto dos pássaros da ilha
um dia após muitos outros
torna-se tão precisamente particular
que cada indivíduo pode finalmente
reconhecer-se,
ao ouvir seu próprio canto
mesmo assim não falecer do banzo
pelo misticismo insularizado
*Poemas do livro “amarelo mostarda”, Editora Nauta, 2024.
pugilismo, segundo Lauren L.,
imagine você
uma árvore
capaz
de assassinar com suas pétalas
abelhas uruçu-do-chão
de cessar para sempre
a trilha de uma formiga
saúva-da-mata
na praça da Escola
Estadual Gonçalves Chaves
éramos taxonomistas
tardes inteiras
tentando descobrir
qual era o apelido
daquela árvore
suas pétalas-punho
nocauteando a pele
que se contorcia
entre os bancos da praça
tão magricela
seus cotovelos
cheios de gigantismos
eram o pano de fundo
das libélulas mecânicas em Montes Claros
a Prefeitura dava aos insetos
quantidades aleatórias de asas
então cada aluno
escolhia uma libélula
e torcia para a escolhida vencer o jogo
quando a libélula mecânica de Lauren L.
não ganhava
a maratona
Lauren L. dizia:
não mexe comigo
senão lhe atiro
uma flor
xixi-de-macaco
a junção do vermelho
mucilaginoso
com o amarelo pontiagudo resulta
em uma laranja metódica
que esfaqueia com o polén quem
deveria beijar
brincávamos de pique-esconde como quem conta flores
ninguém me procurava
Lauren L. chegava por trás de mim tapava os meus olhos
perguntava quem era
e pela anatomia do vento nas mãos eu sabia
que era
sempre ela
com suas clavículas de ipê amarelo
assim descobrimos:
aquela anciã vegetal
que se estendia
no pátio da Escola Estadual Gonçalves Chaves
desde quando
a minha avó Amélia
estudou aqui
chamava-se xixi-de-macaco
tulipeira-do-gabão
chama-da-floresta
uma planta exótica
afropugilista
que entrava no ringue portando somente
as pétalas
que aportava nos punhos
secretamente ficamos todos muito aliviados
então quer dizer que
se essa senhora botânica mija na cama
também
e tem o xixi
tão poderoso
a ponto
de chamar a floresta inteira de aniquilar as abelhas de inaugurar urticárias
mamãe não deve
ficar assim
tão brava conosco
quando mijamos na cama estamos, mamãe,
aprendendo a deferir golpes víamos a árvore
em todas as aulas de handebol
o único momento em que podíamos sentar no pátio
sem sermos punidos
com o hino nacional
(ambos os braços para trás)
cochichávamos, logo após:
ao saudar a pátria-arcabouço nunca mostrar
o que portamos
nas mãos
dia sim
dia não
brincávamos
de nos vingar dos meninos
de todas as vezes que riam das nossas bonecas
que puxavam os nossos cabelos
no segundo intervalo
recomeçamos a corrida
porque eles insistiam
em roubar
nossas bonecas de pano
as bonecas de pano pretas
que minhas tias faziam
ensinaram-me
o esporte dos amortecimentos
arremessava as bonecas da varanda para ver se era seguro
pular também
foi assim que terminei
com a cabeça de caixa d’água presa entre os pilares
e temporariamente banida
das olimpíadas de arremesso das bonecas
viam-me correndo
atrás dos meninos
pensavam que eu
assim tão alta
assim tão preta
assim tão magra
com quê
de olívia palito geraizeira
deveria ser
muito boa nos esportes
o Muhammad Ali
a Simone Biles
a Serena Williams
são pretos que nem
Manu
até que perceberam
que eu tinha dois pés esquerdos ou melhor
todo meu corpo
era um mindinho
esquerdo nocauteado
não resistia ao charme da terra acumulava
no joelho
nas bochechas
abismos ralados
corriam atrás de mim:
deixe-me te dar
uma ferida nova
a bola vinha
em minha direção –
assim foi originado
o filete de sangue
em minhas gengivas roxas
naquele tempo
não tinham me ensinado sequer a fuga
na hora de montar os times de handebol
as meninas ficavam
muito bravas comigo
diziam que se não fosse eu
se não fosse por mim
não teriam perdido
elas esperavam mais
que eu não fosse desse jeito
afinal de contas
pra que servia
ser tão preta
e não saber
jogar uma bola
eu ficava
que nem gongolo
vendo a vassoura
nem a água do olho
queria sair
me perguntava
em que vinca
do chão
do pátio
tinham se escondido as minhas patas palavras
Lauren L. dizia
se vocês têm um problema com ela se vocês perderam
se vocês eram mais de uma
pra que servem vocês?
se vocês saíram
do pátio
sem nenhum joelho ralado
é sinal de que não
se jogaram na terra
se vocês não têm
um filete de sangue
nos dentes
é sinal de que não tentaram segurar nenhuma palavra
ela pode ser
uma aberração nos esportes
mas agora será uma aberração
do meu grupo de handebol
se vocês têm uma briga com ela
vocês têm uma briga comigo e eu já falei:
estou armada
de xixi-de-macaco
até os punhos.
*Poema do livro “pugilismo, segundo Lauren L.”, Selo Capitolinas, 2026.