Lawrence George Durrell nasceu em Jalandhar, Índia, em 27 de fevereiro de 1912. Poeta, romancista e dramaturgo, ficou conhecido por seus livros em inglês, autos em versos e contos. Sua obra mais famosa é o Quarteto de Alexandria, tetralogia escrita entre 1957 e 1960. Lawrence Durrell faleceu no dia 7 de novembro de 1990, em Sommières, na França.
O Poeta
O tempo andou contra meu ovo,
Mas Saturno o incubou;
Deu duas garrafas enferrujadas,
A lógica do antílope:
Durante o coma da tartaruga no verão,
A lua nova esteve olhando.
Quatro estações conspiraram
Para envenenar minha água: com tesouras
Uma primavera tardia feriu o botão,
Apertou a coifa em meu crânio,
Acalentou-me em sangue de dragão.
O sol ressecou esta cabeça-cadinho,
Tecendo-me em trágico tear.
Nove luas ouviram de minha vinda,
O rufar de cavalos mitológicos
Nas paredes do útero.
O inverno enterrou os olhos como a talentos.
Apertou o anel ósseo da têmpora
E agora a empada está aberta,
Emplumada a cabeça da corujinha:
– Que vai cantar o monstro?
ENVOI
Cala-te, sapo desgraçado.
Deixa Deus florescer como bem deve
E um cão por outro cão ser devorado,
Que o humano pó não tem outro futuro:
O puro há de morrer nas mãos do impuro.
Contagem de Glóbulos
Uma amora caiu nesta página
O que podia ter sido antes cilindro e lentes
De um microscópio, resumo corado com eosina
De uma guerra que há nos canais azuis
Do humano coração, glóbulos vermelhos
Contra os brancos: vitória de um, negação do amor.
Enquanto isso, na crosta externa, nenhuma
Doença no coração do tempo,
Frutos respiram em árvores e gestos,
A casca fresca, a folhagem das mãos orvalhada,
Dirigem a haste formosa de tua carne
Para cima, em novo empuxo, a seiva jorrando.
Luar
Não posso ler Plínio sem terror.
Parece que nas árvores a seiva
É aluada, subindo e descendo
Em rendição absoluta, e se as árvores
Vão assim, o padrão menstrual reconverte
Alguns ritmos em seiva humana
Para o termômetro de prata no teu sono.
Derrubar e cortar o tronco inteiro,
Mas como parar o sangramento perpétuo?
Não sei dizer como, mas tanto é claro,
Que o espontâneo é apenas mais um provérbio carnal
De mentes sem valor. Um homem em pé,
Encostado num portão a esperar, um décor frugal,
Seja em alguma cidade do norte com vegetação de aço,
Em algum brilho ingovernável
De uma ilha, ao mesmo portão o mesmo homem
À espera, pode ser visto menos como animal
Que como mineral, uma cisterna embrutecida
para vinho ou sangue, fluindo e refluindo,
Crescer e minguar na fúria ingovernável
De uma fosforescência qualquer. Sim, ele espera
Simplesmente espera e fuma e segue esperando,
Você sabe por que, e quando e por quem.
Cristo no Brasil
Além dele, cujos cabelos femininos escorrem
Pelo elegante dorso abaixo
Ou cujas palmas se encolhem
Ali onde as unhas têm entrada,
Erguendo-se, denunciada a poeira que foram,
Surgem sótãos de testemunhas do pecado.
Tanto aqui quanto neste mapa que já se desbarata,
O legionário amaldiçoou Roma;
Além mesmo da Europa, no Brasil, o vejo
Aquecido da seiva das matas
Sem achar casa fora de casa, tornar-se
Cônsul negro nos países do Desejo.
Aqui nomeado, ali honrado, nunca entendido, talvez,
Pairando sobre o Rio em seu penhasco
Cujo pequeno original em madeira se fez,
Em gradual petrificação de sua dor, aflito,
Espalha a tintura bárbara do conscrito
Sobre as cidades da carne, sua viuvez.
*Poemas do livro “Poemas”, Editora Topbooks, 1995.
Tradução de Jorge Wanderley