António Torrado nasceu em Lisboa, Portugal, em 21 de novembro de 1939. Poeta, escritor, dramaturgo e professor, licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Coimbra. Ao longo da carreira, colaborou em diversos livros e programas educativos de televisão e tornou-se um dos principais nomes da literatura infantil portuguesa. Sua obra, extensa e diversificada, reúne textos de raiz popular e tradicional, além de poesia e, sobretudo, contos.
Torrado reconhecia a importância fundamental da literatura infantil como veículo de valores e mensagens, tendo como princípios a promoção da liberdade de expressão e o respeito pela diferença. O humor também era um recurso frequente em suas histórias. Foi ainda coordenador do curso anual de expressão poética e narrativa do Centro de Arte Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian.
António Torrado morreu em 11 de junho de 2021, aos 81 anos, em decorrência de uma doença neurodegenerativa.
À BEIRA TEMPO
é um tempo visto em vidro
no vivo crepitante das lunetas
estufa lhe chamam, de sol
e cidra
azedo de ferrugens e promessas.
Se templo é
e fosco de esperar
a babugem do mar já o lavou
e o que ficou, no tampo do altar,
dá pouco para rezar.
A cerveja, meus senhores, acabou.
TEMPLO FECHADO PARA BALANÇO
agora andando pelo claustro transverso deste templo
compilando
azos estilhaços semelhanças
rendas em novelo
lenços comovidos
desbotados
enumeramos não somamos
damos e leixamos
genuíno falso sucedâneo
misturamos
tropeçamos
Nesta devassa há anos
até quando o prazo?
CASTRO TEMPLO
cantil de sangue apenso
o sangue humilda os membros
os membros da família.
Bebemo-lo em silêncio
na ceia consoada.
O templo nos resguarda
de sermos já tão poucos.
Pingando para o chão
o sangue degenera.
A boca que o sorvera
arrota a intemperança.
Algures uma criança
provou-o à sucapa.
Amarga, em vão alastra
pelas lajes deste templo.
Ficção ou aparência
um tanto filiforme
aguado, se adoece
depois de tantos anos,
desgruda-se da mesa
deserta das compotas.
Na ceia dos sobrantes
olhamos para as portas
inúteis e rangentes.
Provera que o meu sangue
dos meus antepassados
coubesse na proveta
vidrada da lembrança
aí se conservasse
até que uma criança
cruel o derramasse
e da areia que o chupasse
nascesse uma tarântula
retrato flamejante
do castro ou da família
do sangue redundante.
O templo que vacila.
HONORIS CAUSA
é um templo indolente e resguardado
escorrendo parafina nos sorrisos
viveiro de violetas, de lilases
das asas alvacentas do marasmo
por sobre o tampo gasto do lirismo
é um templo limpa-unhas e processos
extraídos da memória dum obscuro
das tábuas remissivas
de velhos magarefes
que esgravatam as grutas da cultura
é um templo todo em ceia de pleonasmos
e do jeito quiromante de escondê-los
com portas disfarçadas sob escadas
janelas bem muradas
cancelas mal untadas
docentes com dores de tornozelo
Deste templo de zelo e demasia
é grada a fama e doutorada a azia
mas mais seria
se fosse desinfectado à chama
letra a letra
escama a escama
greta a greta
que então, brutal cosmogonia,
dele brotariam
novo grelo
urze fresca, muita grama.
*Poemas do livro “Dos Templos”, Editora &etc, 1984.