Maria Santos nasceu no Rio de Janeiro, em 1998. Poeta, roteirista e atriz, atualmente escreve para o Porta dos Fundos. Lançou-se no cinema, escrevendo e atuando, no filme “Todo mundo (ainda) tem problemas sexuais”, adaptação da obra de Domingos Oliveira. Publicou dois livros: “Elise”, em 2022, e “”Fulgorífera (a fera)”, em 2025.

Lagosta encosta no vermelho-cinza do seu destino

UM VULCÃO EXPLODE
OS FILHOS DE POMPEIA CORREM ARDENTES
PEDRAS VIERAM COMO CARTA
EM PAPIRO
DIZENDO AO POVO QUE IR OU FICAR
É DE CERTO O MESMO

Assim são os destinos
intransigíveis se fizermos o feijão, lavamos o banheiro
os vulcões borbulham incapazes de retorno
as lagostas encostam na beira do mar
pensando ser o reflexo da sua crosta
(que aLMA não se confundiria com o vermelho do magma)

A vida dos objetos é a imortalidade

Roubei da casa da minha avó uma cerâmica de moça anuviada,
seus cabelos soprados pelo vento
seus olhos, nem abertos nem fechados,
seu torso sereno inexistente, o sorriso
feito por mãos desconhecidas

ouvi ela gritar Meu Nome
inventando
minha para sempre resposta,

sim,…
eu era ela por algum momento

suas nuvens no cabelo,
cabelo?
sim, …
caso a moldura, silhueta da palavra,
puder assim ser chamada

Já que a paixão levou tudo de mim, seguro nas mãos uma caneca que
meu namorado me deu antes de partir, imprimiu nossas fotos numa
loja 24h de canecas exclusivas e descoladas (para que alguém
precisaria com urgência de uma caneca às 4h15 da manhã?!) (nossa
maria que comentário besta e pouco interessante) (como castigo,
faremos uma lista de possíveis situações para que um namorado dê
a sua namorada uma caneca personalizada com fotos do casal em
viagens cafonas como torres e monumentos civis na paisagem às 4h e
15 da manhã)
os dois estão dormindo, acabaram de se mudar depois de um lindo
casamento no campo, porém, não há recipientes na casa e numa sede
desértica a namorada diz eu estou com sede, o namorado diz beba
direto da pia, a namorada levanta da cama e sente um torcicolo
alouquecido e diz não terá como preciso que você ligue para CANECAS 24H
a mãe dela não aceita o bofe e numa tentativa fajuta de impressionar
a sogra o namorado passa nas CANECAS 24H
hábitos de consumo. C24H
nos exatos 4h14 a nams termina com nams e
o simples desejo por uma caneca no CANECAS 24H
para mim a vida é isto

Passado o tempo, os objetos tinham as características da menina, eram
sim, … tristes, asmáticos, famintos e cruéis,
eram também azuis, piscianos lunáticos
os objetos cobriam o ácido desejo
deles mesmo 

 Ouvir o anseio da concha

Acendo a vela para escrever no mar, Carmelita dança contagiante na
beira do lago, na margem que circunda as águas. Lembra das outras
duas irmãs. Cinco anos e sabe mais que muito, pensa se o jeito de
seguir a vida é construindo paredes, arquitetando tetos, ou alongar-se
na dança que faz frente à folha, na beira da bacia.

o amor corre como córrego, fonte, medo,
travessia das naves,
o espaço no mar, o desvio

vencer a Língua, torná-la dispersão

A paixão que sentia por ele expandia-se por entrevias, botaram
páginas e páginas em frente aos olhos, só pensava no dia em que
fugiriam para o verdadeiro mundo, aquele seu amor, aquela doce
sensação louca de flutuação

ouvir o anseio da concha
fazer morada no volume mascarado por mar

as três irmãs chegaram na praia para ouvir o “anseio da concha” que o
vô havia contado ser o desvio derradeiro da vida,

toda estrela é uma ilusão
seja no palco, no mar ou na imensidão

“se já algum objeto nesta espacial existência, que seja ouvir o anseio
da concha”
“os anseios?” perguntou uma das netas
“o anseio.”

As férias eram sempre na casa de praia, os pais deixavam as meninas
lá por dias, “enfeitando os audíveis do vô”,
no impulso de ouvir os anseios, as meninas corriam na margem das
águas, batiam os pés procurando o som, derramando-se pelo desejo
do som, atravessadas pelo Vento, pelo Tempo, pela Paixão
Carmelita parou um instante, tirou uma foto com os olhos, fazia isso
sempre que ficava feliz por demais. Piscou.
Quando abriu, parada, não via mais as meninas. Olhou lado, outro,
nenhuma das duas irmãs estava ali. Correu para a beira d’água,
berrou seus respectivos nomes, nada… Nada nem nadar, subiu numa
montanhinha de areia, para melhor prevê-las, nada nem nadar,
inventou, em vento oeste, outros nomes para as irmãs e nada nem
nadar,
correu de volta à casa, ofegante, berrou pelo seu vô, “as não estão aqui,
eu pisquei, vi o sol mapeada em meu olho”, lembrou-se das linhas do
desenho,
“e elas sumiram”,
seu vô não respondeu

Vô?

O Sol agora, dentro da casa, também circundava as imagens do lar.
Nenhum som a mais, nenhum som de resposta,
mas os anseios dilatam pelo ar, a alegria era fecunda,
Carmelita voltou correndo à praia, acendeu uma vela,
construiu uma folha, quebrou a quarta parede, reivindicou a fala
sozinha,
escolheu entre os modos de estar
tudo em quasar, nas três marias, noite clara, as costas do dragão,
as conchas ansiavam
eu fujo A Escuridão.

*Poemas do livro “Fulgorífera (a fera)”, Editora 7 Letras, 2025.