Josely Vianna Baptista nasceu em Curitiba, Paraná, em 1957. Poeta, tradutora e escritora, entre seus livros, estão: Ar (1991), Corpografia (1992), este em colaboração com o artista plástico Francisco Faria, A concha das mil coisas maravilhosas do velho caramujo (2001), que, no ano seguinte, recebeu o VI Prémio Internacional Del Libro Ilustrado Infantil y Juvenil del Gobierno Del México. Em 1996, criou a coleção Cadernos da Ameríndia, dedicada a temas do repertório cultural e textual de etnias indígenas sul-americanas. Traduziu nomes do Julio Cortázar, Cabrera Infante, Álvaro Mutis, a antologia de poesia neobarroca cubana e rioplantense Caribe Transplatino (Iluminuras) e o Paradiso de Lezama Lima, entre outros.
Tecoma
soltas
do caule
as pétalas
do ipê
descolorem
a penugem
dos talos
(de repente
leves,
da carola
livres),
em alvoroço
viçam
– após lento
pouco –
de sol
o capim
Cortejo noturno
trouxe na lua crescente
uma canastra de peixes
(as guelras membranas baças
de romãs despedaçadas)
nos lampejos da minguante
um puçá de caranguejos:
tanino do mangue-bravo
fez o azul das carapaças
das fasquias de taquara
fisgou argolas de palha;
as plumas de maguari
transbordando das cabaças
no cesto da lua nova
frutos roxos de figueira,
gavelas, paveias, feixes
para o leito sobre a areia
29 dias
restos de flores de goivo,
gomos e lábios vermelhos
– o lento engenho do jogo
no começo dos afagos
(sobre o leito frondoso
o alvorecer poento
encontre os noivos reclusos
dentro do próprio desejo)
dedos trêmulos e beijos
sobre seus cabelos negros
– lampejo sombrio do gozo
no fôlego dos abraços
(junto aos latejos do fogo
o poente poeirento
encontre os noivos desnudos
no assombro do silêncio)
restos de flores de goivo
sobre seus cabelos negros
Exercício espiritual
risco
no portulano
da areia
o roteiro do error
(do latim errore):
viagem sem rumo
e sem fim,
como a dos ascetas
e dos apaixonados,
fadados ao êxtase
e ao naufrágio
*Poemas do livro “Poesia”, Companhia das Letras, 2023.