Roberta Tostes Daniel nasceu no Rio de Janeiro, em 25 dezembro de 1981. Poeta, formada em Letras, é servidora pública na cidade do Rio de Janeiro. Começou escrevendo em blogs. Publicou os livros “Uma casa perto de um vulcão” (Patuá, 2018) e “Ainda ancora o infinito” (Moinhos, 2019). Participou também de várias antologias, impressas e digitais.
OS TÍMIDOS, AS ROSAS
Os tímidos
não esmorecem
as rosas.
Singram para o olfato,
não sabem onde
ancorar as mãos.
Navegam
o desejo do toque
e transbordam.
Perfumes carregam
no ar
o desejo da cor.
META-ABISMO
Configurar o êxtase –
o poema é um antipoema
que o homem escreve
na pele de seu abandono
papel que escava e delira.
Triste espetáculo
do qual se sabe:
atinar o nada,
resvalar o nada
na torrente de enganos,
deixar que floresça
mais homem, mais palavra
– sem que feneça, a mortalha
não ameaça os sonhos
com que a vida se lavra.
NEM TODA RESISTÊNCIA É HERÓICA.
A boca da manhã é sedenta
e abre mágoas sobre a pele dos vencedores.
O primeiro dia depois do fim é sempre o fim.
Insones, sonhai os sonhos que não tiveram.
SEVÍCIA
Não, não dizer palavra.
Nada que assente ao desgosto
seu ar vitorioso
(deitar a sete palmos
setenta nomes que não tocaram).
Há quem ao redor de um muro
escape pela porta da frente;
há quem meta todas as grades.
A quem falta o mal
ou o mal prodigaliza:
mata pelo devaneio
a que chama memória,
reino de um império extinto,
– antes, não havido;
renome de matéria nenhuma.
ESTRANGEIRO
O poema, eu me banho com ele,
e ele escorre com a sujeira do meu corpo
– as palavras que eu direi uma única vez,
fatigada de sempre as reconhecer.
Refazer o dia abrindo as janelas
e das cortinas libertar o sol.
São palavras de morrer
como o executado no livro:
abrir a janela
e suspender a claridade obscura,
despir-se do rompante da sombra.
Mais que a morte,
um só destino que me soa o futuro:
eu tenho lido todos os livros,
entristecida a minha carne.
CRESCIMENTO
O ar, punhal cortando
a camada de acontecimentos
em finíssimos respiros da leveza.
A voz, modulação desse firmamento
erigindo um canto
da casa, árvore para a qual
deixamos nossos asteroides
onde arrancamos como praga
a brotação de baobás.
Somos príncipes devolutos
do que nos sucede
nos fazemos para o tempo –
sombra
dando de morrer às próximas gerações.
*Poemas do livro “ainda ancora o infinito”, Editora Moinhos, 2019.