Sofia Mariutti nasceu em São Paulo (SP), em 1987. Poeta, tradutora e editora, com mestrado em língua e literatura alemã na Universidade de São Paulo (USP), publicou o livro de poemas “A orca no avião” (Patuá, 2017), o infantil Vamos desenhar palavras escritas? (Companhia das Letrinhas, 2023) e “Abrir a boca da Cobra” (Círculo de Poemas, 2023).

Extinção

Orcas sem só cabeceiam
entre as marolas do mar.
A vida vai se apagando
e não há comida que baste.

Curiosos carecem de medo.
A imaginação tem boca grande
mandíbulas inclementes
dentes sólidos.

Quem cai na água some.
A mãe que busca se parte
em duas e me faltam braços
pra salvar os meus.

*
Seu livro novo chegou
a leitura se dá dentro do mar
em deslizamento

Subimos em ondas até a margem
tocamos o pé na rocha
descemos de volta à água
traçando um desenho costeiro

Do fundo do mar notamos
o contorno de um corpo gigante
flutuar por um segundo fracionado várias vezes
– talvez uma orca ou um submarino

Conversamos sobre essa nossa dança marítima
sobre a natureza daquela aparição

O poema não eram as rochas
as ondas a água não era meu corpo o seu
ou esse dorso pesado passando por cima da gente

Tinha alguma coisa do gesto
dos corpos na água
era um gesto na água

*
Empoeirada na porteira
uma coruja muda
se espelha em duas
das quatro telas das
câmeras de segurança
onde um crime sempre
parece possível

Coruja sentinela, inocente
pressente sua captura
em retrato
abre-se em voo cruza
uma tela de viés
ressurge na outra
até escapar de vez
da gaiola plana

*
Deitada no ombro
do meu pai tento
extrair das letras emboladas
de um romance alguma
mancha de sentido
antes que ele vire
outra vez
a página

*
Um dinossauro não é uma fada
ou uma sereia
os fósseis atestam
seu tempo no mundo.

As abelhas já existiam, e as tartarugas
os besouros, cupins
mosquitos, caranguejos.

Como quando dizemos de uma avó
que se parece com a neta, os dinossauros
às vezes lembram baleias, pelicanos
camelos, bisões, vacas
leões, tuiuiús.

Todas as coisas imitam outras, todas.

– O mundo dos dinossauros
nunca acaba.

*Poemas do livro “Abrir a boca da Cobra”, Círculo de Poemas, 2023.