José Tolentino Calaça de Mendonça nasceu Machico, Ilha da Madeira, Portugal, em 15 de Dezembro de 1965. Poeta, cardeal, teólogo e professor, é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, na Cúria Romana. No dia 5 de outubro de 2019 foi elevado a cardeal pelo Papa Francisco durante o Consistório Ordinário Público de 2019. É considerado uma das vozes mais originais da literatura portuguesa contemporânea e reconhecido como um eminente intelectual católico. A sua obra inclui poesia, ensaios e peças de teatro.
A PRIMEIRA MORADA
lembro-me, a mãe subia
pela tarde transportando
pequenos vasos de
orquídeas, cavando junto
ao muro alto
onde se abrigavam pezinhos
de hortelã e crisântemos, vigiando
o florir lento dos antúrios
pondo e dispondo flores
com uma atenção muito grave
feita de silêncio e
cuidado
Lembro-me, os dias contavam-se
por esses aromas, lisas invocações
as vizinhas celebravam
com alegrias
na pausa dos bordados
nesses dias já adriano
atingiria os confins da grécia
e ao olhar a neve
no alto do etna alcançou
uma felicidade que
COAST TO COAST
Ainda ontem perto do dique
sentia o vento bater-lhe nas costas
o rapaz que fora e o cão que tivera
corriam no meio dos milheirais
escapando aos tons, quase ilegíveis
a garantir que existiriam uma vez
Debruçados por penedos, infatigáveis
enumeravam as escamas da terra
presos à luz branca do clarão
A HORTA DE MEU PAI
Ele ampara a altura
de incontáveis plantas e rebentos
estende a cal, espera a floração
em sítios desabrigados
pergunta-se: este caminho tem coração?
quando reparo na horta desde o terreiro da casa
não me parece que esteja ali
mas em qualquer passagem inacessível
na fronteira avançada
que me arrasta para uma verdade
as groselheiras pendem dos muros
a tudo o sol concede a exata porção
OUTRO LUGAR
A verdade que pertence aos gestos
ao menor dos nossos gestos
antes de chegarem palavras que nos socorram
às vezes é a verdade de um amor
Escassos propósitos as palavras
para o abalo de terra
em que se tornou de repente
a nossa vida
Um sofrimento não nos larga
a manhã parece-se estranhamente
com outro lugar
saberemos então que significam
os intervalos do silêncio
onde o silêncio é maior
RETRATO DA ALMA
No ano de 196- eu escrevia versos
a imitar Kavafis fumava desalmadamente
e como te jurei não queria
apagava e acendia os olhos
num lugar sempre mais longe
já não sabia parar
espíritos antigos alçavam-se inquietos
à minha procura
e quando pelos campos
o meu corpo cansado abandonava
animais silenciosos temiam
em mim a vizinhança do deus morto
por esses tempos atravessam o mundo
rancores e perfeições
mas eu nada pretendia
ao final foi tudo muito simples
essa sombra que tens
disse-me o oficial de serviço
já não és
UM PEQUENO TREMOR
A sua morte não passou de um pequeno tremor
as fúrias gritavam
mas ao longe
dentro das câmaras onde esses gritos
de aranha não se escutam
A sua grandeza era uma quase indiferença
aos desastres
No cimo de si próprio
sustinha objetos improváveis
caminha pelo fogo
sem desordem
sem desejo doutro passo
uma forma de pudor era nele
a acalmia
sem ele saber as palavras
deslizavam para um lugar sem perigos
mas também sem palavras
COISAS TÃO FELIZES
Entre amigo e amigo
jamais se afastam
coisas tão felizes:
os instantâneos silêncios de certas formas
os protestos inocentes à nossa passagem
a natureza fortuita, dizia eu
imortal, dizias tu
do vento?
LILASES
Quando por fim a cifra infinita
que dois mundos combinam
esplender inteiramente seus motivos
a cada um caberá olhar
na lâmina de ouro
um nome inefável
o que buscamos sem um gesto
o que dissemos sem uma palavra
REVELAÇÃO
Meu o ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo
Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentindo das margens
sitiando a distância
Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombra e arestas
Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes
INSCRIÇÃO
o brilho é o leve
júbilo
que sustenta os versos
ainda que sejamos obscuros
e nenhum nome
sirva jamais para dizer
o fogo
*Poemas do livro “A Noite Abre Meus Olhos”, Assírio & Alvim, 2024.