Andrea Zanzotto nasceu em Pieve di Soligo, Itália, em 10 de outubro de 1921. Poeta e escritor, foi considerado “herdeiro da poesia de Eugenio Montale”, um dos principais poetas italianos do século XX. Sua produção, iniciada com a publicação de Dietro il paesaggio [Por trás da paisagem], em 1951, pode ser lida sob diferentes perspectivas: da forte relação com a tradição ao caráter mais radical e experimental de sua escrita, passando pelo hermetismo e por certa atmosfera bucólica, sem deixar de abordar as atrocidades da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais, a Guerra do Vietnã, a destruição da natureza e a profunda transformação e reconfiguração da paisagem da região do Vêneto.

A devastação e a transformação radical da paisagem e, consequentemente, do homem que a habita, em nome de um progresso desenfreado e avassalador, constituem um dos cernes da potente poesia zanzottiana. Essa transformação encontra um importante paralelo no conceito de “mutação antropológica”, formulado por Pier Paolo Pasolini alguns anos depois para se referir às profundas mudanças provocadas pelo avanço do capitalismo e da sociedade de consumo.

Andrea Zanzotto faleceu em 18 de outubro de 2011, aos 90 anos, em Conegliano, Itália.

Na encruzilhada

Em novembro se degradam os prados
deixa a virgem cair da mão a gema
o verde vivo é tão só
lá na passagem dos montes,
galos ofuscados galos campestres
de todas as tocas e os segredos
chamarão amanhã
as razões eternas da neve

Pra cá do meu olhar
na areia daquele poente
o sol arrisca o seu cristal
a lua na encruzilhada
e pende o bosque de natal
batido pelo vento;
eu estou aqui doce escravo
de hortas ocultas e macias de agulhas,
tenho os brandos dentes cariados de ouro,
e tudo vai embora
com meus passos de sonâmbulo,
casas e grutas se inebriam
de tepores de cascas e de roupas

Eis que recolhem lá embaixo da geada
uma criança saída do batismo
e a carregam pelas estradas,
a videira se abandonou
fora do muro e do sol
às estrelas setentionais,
o trigo nasceu ao redor
das aldeias das cores das meninas,
o sol está lá que não deixa dormir
os prados muito verdes
e a água desvia
se atormenta se derrete se afasta

Mas o esquilo além do frio
limiar indagando
deixa a frágil comida e ainda vive
de seu coração de morango.

Agora já

Já a prímula e o calor
nos pés e o verde acume do mundo

Os tapetes expostos
as loggias vibradas pelo vento e o sol
tranquilo verme de espinhentos bosques;
o meu mal distante, a sede diferente
como uma outra vida no peito

Aqui não resta senão se cingir à paisagem
aqui dar as costas.

Reunião

Hesita ainda o semblante
dos soldados selvagens
nas portas, e hostis
insígnias nos fortins
levanta-se a noite, convocando praças.

Um astro adusto destruiu essa terra
cheia de poços e tocas
se aventura a sombra estival
por ruelas e mirantes
e quebrados teatros.

No desenho dos pisos
nas fendas dos quartéis
nas clausuras das academias
um morbo brilha,
o vidro germe do gelo se perde,
o vinho e o ouro nas mesas desbota.

Mas, glória avara do mundo,
de outras estações memória deforme,
resta a selva.

Na minha aldeia

Leves já são os sonhos,
por todos amado
com eles eu estou em minha aldeia,
me sinto guloso por açúcar;
além da praça e da sálvia vermelha
se protege a chuva
se derretem os ruídos
e a risonha condolência
pela qual temeste com tanta fantasia
esse engano do dia
e seu preto de inócua serpente

Da minha volta cintilam os vidros
e os pomos da minha casa,
as colinas são as primeiras
na chegada molhada dos céus,
toda a água d’ouro está no balde
toda a areia no quintal
e fazem rima com as colinas

De porta em porta se grita ao amor
na adoçada devastação
e o sol límpido está curvado
sobre outra página do vento.

Além

Além tu ceifas e compões
as cordiais semelhanças das flores
além nunca saciada
é a tua fome de menina
e tens a maçã e o gelo vegetal,
lá te punge no pulso a tua bússola
para te indicar a estrela
que é o teu verdadeiro gêmeo;
e a dúvida se alonga de uma sílaba
para que tu possas conhecer
coles pequenos como nozes
para teus dentes jocosos,
sós como voos de vespas
e palavras que ressoam como moedas;
e tu preparas ao vento a hora
das maiores alturas
das mais vigorosas seminações
das suas visitas que apaixonam

É pra ti que a alegria das aldeias
livremente segue imitando
as tuas simples ações;
e pra ti essa terra não é
senão um brando miúdo satélite
que sabe bem para onde vai.

*Poemas do livro “Primeiras paisagens”, Editora 7 Letras, 2021.
Tradução de Patrícia Peterle