Carlos Moreira Kinzo nasceu em São Paulo (SP). Poeta, escritora e dramaturga, é Doutora e Mestre pelo Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Línguas Portuguesa da FFLCH/USP. Possui graduação em Cinema e Vídeo pela Escola de Comunicações e Artes/USP (2004) e em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/USP (2012). Possui experiência na área de Cinema e Letras, com ênfase em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura e cinema, o estrangeiro e o cinema nacional. É pesquisadora participante do Grupo de Pesquisa Colonialismo e Pós-Colonialismo em Português (USP). Foi editora da Revista Crioula e é editora da nosotros, editorial. Em 2023, seu texto para o teatro “Caro Kafka”, escrito em parceria com o dramaturgo Marcos Gomes, recebeu o APCA de Melhor Livre Adaptação.

vila pompeia

o cadarço do cobrador, a catraca
três passagens restam no bilhete
o sol incide no lado esquerdo
da João Ramalho e nas costas
desta mulher, para onde ela vai
algumas costas parecem mais tristes
a essa hora do dia e às quartas
um dia estiveram abertas
as janelas térreas da cidade
elas fecham essas notas viárias
de um arranha-céu que sobe
dos olhos que batem no teto

*
a planta que morre, a terra impossível
a parte do tronco sem vida enterrada
sem seiva, sem raiz movimenta
ainda assim os fluxos
subcutâneos do que se precipita
a palavra, o minério, a linha no rosto
sob a testa marcada os raios
uvb de uma vida, frases
quebradiças sustentam
certa energia luminosa
quando se sorri, a explosão
no maxilar também paga tributo
à folha presa nos dentes
à camomila esquecida num chá

*
às vezes somos memória
oscilante dos peixes repetindo
em aquários o que não se fixa
somos o que ainda assim
busca um porto, um ponto
algo que se reconheça
nesse fluxo, uma boia
uma âncora talvez
entre as paredes de vidro
caindo no tempo em que cai
uma montanha de gelo
sem aviso dentro d’água

*
resta largada entre estações
essa imagem que não se forma
nódoa caída na plataforma
mas que cruza a cidade ao meu lado
o que segue comigo me escapa
a palavra árida no interior
da palavra
talvez por isso tenho muita sede
mesmo em dias de chuva
ando agarrada
a uma garrafa d’água

*Poemas do livro “Satélite”, Editora Quelônio, 2019.