Francisco Marcelo Cabral, também conhecido como Chico Cabral, nasceu em Cataguases, em 1930. Poeta, escritor, publicitário, também foi editor e promotor de projetos econômico-financeiros. Era membro do Pen Clube e da União dos Escritores Brasileiros (UBE). Faleceu em 2014 no Rio de Janeiro, cidade que passou a morar na década de 1950.

Afogamento

A chuva cai pelas ruas,
.   intermitente parede,
cercando todos por dentro.

O homem vai pelas ruas
vestido de água corrente,
.       o coração estalando.

.      A rua recebe a chuva
e encaminha a enxurrada
.        para o bueiro voraz.

O homem vai-se sonhando
.     (a chuva tão insistente)
.           para o bueiro voraz.

“Ars Poetica”
Para Lélia Coelho Frota

O Leitor se assenta
o poeta puxa a cadeira
a poesia é o tombo.

O leitor se enleva
o poeta o empurra no abismo
a poesia é o vôo.

O leitor se esquece
o poeta o sacode aos berros
a poesia é o susto.

O leitor é a ninfa
o poeta, o fauno no cio
a poesia é o gozo.

Moebius
Para Roberto Menna Barreto

Encher de vinho a tarde, como se faz com a vida.
Encher de tarde a vida, como se faz com o vinho.
Encher de vida o vinho, como se faz com a tarde.

Encher de vinho a vida, como se faz com a tarde.
Encher de vida a tarde, como se faz com o vinho.
Encher de tarde o vinho, como se faz com a vida.

Sonetos V

Como um naufrágio: o frio vegetal
dos corais e das algas, marulhando
sobre a quilha submersa; o silêncio, al
go de sono (e madeira crepitando
surdamente), o translúcido cristal
da lua em verde úmido, coando
se, difícil, em contrafundo; o mal
perder-se desmedido, deslizando
nas trilhas verticais da água, e por cima,
distância percorrida aquém mistério,
espaço dupla: catacumba e clima;
e afinal, sob o sob, a pedra – o chão
onde bater o casco, que se arrima,
enquanto as ondas bambas, vêm, vão.

*Poemas do livro “Livro de Poemas”, Instituto Francisco de Souza Peixoto, 2003.