Dulce María Loynaz Muñoz nasceu em Havana, Cuba, no dia 10 de dezembro de 1902. Considerada uma das poetas mais importantes da literatura cubana, recebeu o Prêmio Miguel de Cervantes, em 1992. Ficou internacionalmente conhecida, sendo amiga de nomes como Federico Garcia Lorca, Juan Ramón Jiménez e Gabriela Mistral. Em seu país, também foi um figura de grande relevância em movimentos feministas, vista como uma das principais vozes pelos direitos das mulheres votarem e tornaram-se parte da consciência política cubana. Dulce María Loynaz faleceu no dia 27 de abril de 1997, em Havana.

POEMA CXIV

O mundo inteiro se tornou vazio, deixado pelos homens que se
esqueceram de me levar.
Sozinha estou nesta vasta terra, sem outra companhia além dos animais que
tampouco os homens necessitam, que as árvores que não acreditam necessitar.
E amanhã, quando lhes faltarem o canto da cotovia ou o perfume da rosa, se
atentarão que havia uma flor e que havia um pássaro. E poderão pensar que
era bom tê-los.
Porém quando lhes faltarem meu verso tímido, ninguém saberá que alguma vez eu caminhei
entre eles.

POEMA LXXXII

Se você está em cima… por que não desce na chuva que me fecha as pálpebras?
Se está embaixo… por que não sobe no broto de cada árvore, nas pontas
da grama verde que se entrelaçam às minhas roseiras?
Se você está longe… o que fazem os caminhos da terra?
Se você está perto… o que faz meu coração que não te advinha entre todos?

POEMA XLVI

Nem com guirlandas de rosas desejo detê-lo. Não quero nada seu que não brote
por impulso próprio, como a água dos mananciais.
Não encostarei um dedo sobre você; Tenho o prazer de recebê-lo como um presente,
não como um fruto de cansaço. Se eu tiver que descer ao coração da sua terra para procurar o diamante com que
sonhei, guarde o diamante para você, que não o troco pelos meus sonhos.
Dos sonhos ressonados pude viver até agora; do diamante 0ferecido com
desprezo, eu não poderia viver um só dia.

POEMA IMPERFEITO

Entre você e eu, um mar de tempestades
ainda sem ritmo das luas, destruído nas cavidades
de um mundo branco… Um mar de outras idades.

(Barco da minha esperança desde então
por cima das ondas…!)

Entre você e eu, um rio
turvo inflam as chuvas do estio
e se vai desatado monte abaixo… Um grande rio!

(Barco da minha esperança, palmo a palmo
contra a corrente…!)

Entre você e eu, um lago de águas mortas;
água apodrecida, bocas abertas
de jacarés que dormem na hora da sesta.

(Barco da minha esperança, que floresce
caminhos na lama…!)

Entre você e eu, uma estrela…
Apenas a gota de água de uma estrela,
a água que cabia em uma estrela…!

Barco da minha esperança, naufragado
em uma gota de água…!)

CATACLISMO

O sol rachou
e cai um raio de ouro
sobre meu coração.

É um ouro ardente
que salta sobre as nuvens
quebrado em chispas,
que morde meu peito
com muitos dentinhos brilhando…

O sol rachou
e sangra à luz
e está me afogando…

O sol vai me matar!

Poemas do livro “Poesia Completa”, Editorial Letras Cubanas.
Tradução de Igor Calazans para o Recanto do Poeta.